Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Um Mar de Pensamentos

... nasce do desejo inconstante de partilhar um pouco de mim e do que sou numa espécie de diário. Resumo-me em: Maria, 32 anos, signo gémeos, amante de livros, sonhadora, romântica, dramática q.b., viciada em chocolates.

Um Mar de Pensamentos

... nasce do desejo inconstante de partilhar um pouco de mim e do que sou numa espécie de diário. Resumo-me em: Maria, 32 anos, signo gémeos, amante de livros, sonhadora, romântica, dramática q.b., viciada em chocolates.

Porque hoje é o,

Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulher *, vou contar a história de uma menina-mulher a quem, um dia, lhe bastou um estalo do (suposto) príncipe encantado para por fim à violência psicológica.

 

Começa assim...

segredo.24.11.2014-17.jpg

 (in Shiuuuu)

 

Era uma vez, uma menina tímida e introvertida que sonhava todas as noites com o seu príncipe encantado. Um príncipe que gostasse dela, tal como era, protegendo-a e cuidando-a. Acreditava que, um dia, quando fosse adulta, encontraria esse príncipe e, todas as noites fazia o mesmo pedido ao céu e às estrelas: um príncipe como o dos contos das princesas e fadas que a mãe tantas vezes lhe lerá.

 

Os anos, meses, semanas passaram-se e esta menina cresceu mergulhada na insegurança e nos medos: todos lhe diziam que era feia e gorda, que nunca encontraria ninguém. Os dias de sol e calor sucederam-se aos dias de chuva e frio, a vida não parava e, a cada novo ciclo, a menina agora feita uma jovem tornava-se mais fechada. Acreditava nas palavras de cada amiga, de cada colega, achava-se feia e gorda e acreditava piamente que, alguém como ela, nunca teria um príncipe encantado que lhe dissesse o oposto. 

 

As noites deram lugar aos dias, os dias às noite e, a agora mulher, chegou à Universidade sem saber o que era amar-se a ela mesma, o sabor de um beijo ou o abraço apertado de alguém que nos ame. Num corpo de mulher, escondia-se uma menina insegura, tímida, introvertida, acreditando que a vida destinará para ela a solidão... e, quando lhe perguntavam se já tinha namorado, sentia que o mundo a julgava como se de uma falhada se tratasse, porque com a idade de vinte e dois anos já deveria ter tido, pelo menos, um namorado e saber o que se sentia a beijar alguém. 

 

Um dia, nem ela sabe muito bem como foi ou porquê, conheceu aquele que acreditava ser o seu príncipe encantado. Os olhares cruzavam-se na mesma rua e, das primeiras trocas de palavras ao primeiro encontro, as semanas fizeram-se passar rápido. Ele dizia-se encantado pelo sorriso dela e ela, ainda sem se amar, achava que tinha encontrado um amor dos contos de fada. A menina-mulher sentia-se feliz e, quiçá, pela primeira vez, descobriu o que era sentir-se protegida. Do primeiro encontro ao primeiro beijo e consequente início de namoro passaram alguns dias e no rosto estampava um sorriso e um brilho especial no olhar. Já sabia como era sentir a barriga com borboletas e o sabor de um beijo: a pastilhas de menta que ele mastigava para disfarçar o hálito a cigarro, que ela detestava... provavelmente, o único defeito que lhe encontrou no primeiro mês de namoro. Não viu como defeito as humilhações em público, quiçá com dois meses: como aquela vez em que lhe disse que não passava de uma burra porque não sabia a marca de um automóvel ou o significado de uma palavra em inglês; nem daquela vez em que, na companhia de uma amiga, lhe chamou palerma e estúpida porque deixará entornar o café... Também não viu como defeito a noite em que ele lhe pedira o telemóvel para lhe ver as mensagens ou o filme ciumento que imaginará por passar a tarde a trabalhar com os colegas de faculdade (e, somente, porque não tinha ido com a cara deles). Tanta coisa que ela não viu (ou que não quis ver), mesmo quando a tentaram alertar, quando a amiga lhe disse que o único futuro dos dois era com ele a bater-lhe... Nem mesmo quando, distantes de casa e em acesa discussão, ele a mandou sair do carro aos gritos, mandando-a para casa a pé (e, (supostamente) arrependido, prometeu não voltar a fazer o mesmo... repetindo um semelhante episódio algumas semanas antes de completarem um ano de namoro). A menina-mulher não viu nada disto porque tinha medo da solidão, não viu como ele jogou com os seus medos e brincou com ela, lhe destruir a já frágil auto-estima e confiança. Acreditava que, com paciência, amor e a ajuda do tempo o mudaria (a palermice das mulheres acharem que conseguem mudar um homem); porque ele lhe prometera controlar o feitio impulsivo... não a queria perder e ela acreditou. Não tinham nem um ano de namoro (ou a morar juntos, como ele tanto desejava) e já tinham passado por tanto... 

 

A realidade atingiu-a dura e fria quando, certa tarde e já depois de celebrarem o primeiro ano de namoro, ele lhe deu um estalo, atirando-a contra a parede e gritando-lhe que, por ser gorda, mais ninguém a amaria como ele a ama. A menina-mulher deixou-se escorrer pela parede, lavada em lágrimas, confusa, envergonhada, revoltada; enquanto ele se refugiava nos cigarros. Passaram-se minutos, quase horas, quando ele regressou mais calmo, prometendo que não voltaria a fazê-lo, que a culpa era dele e do descontrolo que não controlava. Não foi naquele dia que terminaram mas, algumas semanas depois, a frágil e magoada menina pediu-lhe que terminassem, que já não amava, que precisava de tempo para si. Perguntou-lhe se era mesmo aquilo que queria fazer, alertando-a que, uma vez terminado não haveria retorno... e, assim foi.

 

Bastou um estalo para compreender o que não queria para a sua vida: um príncipe ciumento, impulsivo, controlador, que a fragilizava e a humilhava e onde (certamente) depois do primeiro estalo, se seguiria o segundo, o terceiro, o quarto...

 

Esta é a história das Antónias, Marianas e Joanas. De tantas meninas que sonham um príncipe encantado e se tornam mulheres vítimas de violência... daquela que lhes destrói a confiança e os sonhos, daquela que as mágoa e as marca para todo o sempre, uma dor física e uma dor psicológica. Um príncipe que as marca para sempre, pouco importa o tipo de relacionamento. Esta é a história das Sofias, Marias e Alexandras que tentam esconder, pela vergonha e revolta, a história que poucos conhecem... Uma história ficcional com tanto de real... ou será que andarei assim tão longe da realidade? Mudam-se os detalhes, mas o cenário é quase sempre o mesmo...

 

* (seria mais justo e igualitário chamar-lhe somente Dia Internacional pela Eliminação da Violência (ou de Género, algo assim, mais abrangente)... porque não é só de mulheres que se veste a violência física e psicológica)

 

** (é uma história fantasiada com detalhes de uma realidade próxima e de realidades que li e ouvi)

2 comentários

  • Imagem de perfil

    M* 27.11.2014 11:39

    Olá autora do segredo, :)


    Não sou ninguém para te julgar, muito menos para te insultar (como li em alguns comentários). O que tu vives, em parte, também eu já vi e, daí o contacto. 


    Não te vou dizer o que deves ou não fazer, tu melhor do que eu conheces a relação em que vives, mas deixo o meu conselho: 


    Um ano não são seis anos, é verdade (eu consegui suportar um ano, não toleria seis de violência, seja ela de que forma for), viveram tanta coisa juntos... mas as relações terminam. Uma relação de 15 não se compara a uma de 6 anos e, mesmo assim, terminou. As relações, quando se baseiam no medo e nos insultos verbais, na chantagem monetária e emocional, à muito que deixou de ser relação. Não é uma relação amorosa mas uma relação de dependência, em que um é a vítima e outro o chantagista/agressor. 


    Outra coisa, referes que és obesa. Eu também o sou; vivi a adolescência com problemas de acne e peso. Mas, aprendi uma coisa que pode parecer cliché depois do ano que vivi com o meu ex: amar-me a mim própria. Aceitar-me como sou. Sou gorda sim, aos 26 anos tenho tanto acne como aos 18 mas, acima de tudo, aprendi a gostar um pouco mais de mim e a aceitar-me como sou. A beleza é relativa e efémera: o que para ti é lindo, para mim pode ser feio (e digo-te que, desde já que, para mim, o teu namorado é feio, por muito que exteriormente seja atraente...) e, tal como a vida, a beleza também não é eterna. Eu sei que não é fácil lidar com isso, ainda ando a aprender a fazer isso... vou aos bocadinhos. Um dia sinto-me plenamente confiante e outros, sinto-me como se fosse um bicho... Vou lutando dia após dia e, quiçá, nunca chega a amar-me a 100%... mas, para mim, o mais importante é aceitar-me como sou. O meu peso sou eu quem tenho de engolir. Sobretudo, quero viver uma nova relação mais saudável que a anterior, em que ele me aceite como sou sem estar sempre a desejar mudar-me.
    Aqui no estaminé (como eu apelido o meu blog) já escrevi sobre isso (e, não é para me gabar, mas dizem que muito bem - http://umardepensamentos.blogs.sapo.pt/do-excesso-de-peso-e-da-aceitacao-44063 - e existirá mais algum por aí) e existem outras mulheres que, como eu e tu, também são gordas, terminaram relações que as faziam sofrer e, hoje em dia, são mulheres felizes, casadas e com filhos Image
    E, provavelmente dirás: ah, mas tu já acabaste a tua relação de um ano e continuas sozinha... Pois continuo e provavelmente continuarei, até ao dia em que, o moço lá aparecerá e certamente que me aceitará gorda ou magra, com ou sem acne. Mas, mais vale sozinha e em luta para me aceitar do que numa relação baseada em mentira, insultos, medos, em que ele me rouba os sonhos e o amor próprio.


    Nunca é fácil deixar cair uma relação, seja ela de um ano, seis, vinte ou cinquenta. A mim, admito, custou-me imenso. Mas quando não dá, porque insistir? 
    Se tu mesma admites que vivestes alguns dos cenários descritos no conto e sabes que ele não é correcto contigo, porque motivo insistes? Por seis anos? E se as coisas se agravam? E se ele se torna cada vez mais violento? Vais continuar com ele até que, sei lá, ele te atire de umas escadas ou te marque com uma faca? 


    Não sou ninguém para te julgar ou para impingir seja o que for... mas, já te imaginaste daqui a 20 anos? Será que será igual ou pior? E com filhos? Será que ele não será abusador com eles? Aliás, imaginaste a construir um futuro com ele? 


    Pensa bem no que queres para ti e para o teu futuro... ah, e se for ele a abandonar-te? Já pensaste se ele, amanhã te deixa? Não tens de viver nesse cenário terrível e, com o tempo encontrarás quem te ame verdadeiramente, do jeito que és... mas, como te disse, a decisão é tua ;)



    Aparece sempre que quiseres, és sempre bem recebida Image
    Boa sorte,


    Um beijinho grande, 
    M*
  • | comentar:

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.