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Um Mar de Pensamentos

... nasce do desejo inconstante de partilhar um pouco de mim e do que sou numa espécie de diário. Resumo-me em: Maria, 32 anos, signo gémeos, amante de livros, sonhadora, romântica, dramática q.b., viciada em chocolates.

Um Mar de Pensamentos

... nasce do desejo inconstante de partilhar um pouco de mim e do que sou numa espécie de diário. Resumo-me em: Maria, 32 anos, signo gémeos, amante de livros, sonhadora, romântica, dramática q.b., viciada em chocolates.

Uma história de mim sobre os livros.

Livros e mais livros. Livros. Não me canso de livros.

 

Os meus pais nunca tiveram o hábito da leitura; excepto ler alguns jornais ou revistas. O vício da leitura e dos livros, dizem eles, foi-me incutido por uma amiga da família, uma vizinha do prédio onde vivíamos na Venezuela. Formada na área dos comportamentos humanos, psicologia ou peudoterapeuta, a verdade é que não me recordo da profissão, passei longas horas com ela, onde ler, escrever ou fazer contas de matemática básicas eram rotina. Deste modo, quando nos mudamos para Portugal, conseguia escrever o meu nome completo, bem como ler e escrever palavras básicas em espanhol e fazer contas simples de somar ou subtrair.

 

É estranho como, apesar dos vinte anos que separam a saída do país natal para Portugal, os sentimentos ainda se mantenham e as perguntas iniciadas por e se de quem nunca quis viver no desconhecido sobrevivem... parece-me que, por muitos anos que passem, perguntas como e se nós nunca tivéssemos saído de lá, como será que eu seria? parecida com elas, com a pele tão morena? ou será que os meus gostos seriam os mesmos de agora? e se por lá estivesse, teria esta profissão?. Perguntas que parecem simples para quem nasceu e sempre viveu no mesmo país, embora complexas e incógnitas para quem, em criança, se viu obrigado a mudar de país e não queria - mas, que escolha tinha eu, quando não passava de uma miúda de seis anos? Adiante...

 

Quando, dois anos depois de chegarmos a Portugal, nos mudamos para esta vila, a minha mãe ofereceu-nos, a mim e ao meu irmão, duas caixinhas com cinco livros cada. No total, eram dez pequenos livros, em português, de clássicos intemporais infantis, tais como CinderelaO Patinho Feio, Rapunzel ou A Bela e o Monstro. Livros que, o meu irmão nunca leu, mas que eu devorei e reli uma, duas e três vezes, guardando-os como se de um pequeno tesouro se trata-se. No fundo, aqueles livros eram o meu pequeno tesouro, os melhores amigos que tive na infância. Porque, de facto, os primeiros anos em Portugal estiveram longe de serem perfeitos e eu, que outrora era miúda segura e refilona, optava por ficar calada com receio de ser gozada por tropeçar o espanhol com o português. Não aprendi, naquela idade e ainda hoje, como se fazem amigos. 

 

Os livros, para os meus pais, nunca foram fonte de interesse. Embora a minha mãe me tenha oferecido aqueles livros, a verdade é que para eles, apenas os livros/manuais da escola é que importavam. Consideravam que a minha atenção, aliás, a nossa atenção, minha e do meu irmão, deveria passar pelas aulas e livros/manuais escolares. Outros livros não lhe encontravam utilidade. Mas eu, também sempre fui criança teimosa... Assim, uns anos mais tarde e na falta de vontade dos meus pais em comprar livros, roubava algumas moedas da carteira da minha mãe para livros e, mais tarde, revistas. Não me julguem nem me condenem. Não sabia o que era semanada ou mesada. Só aprendi tal significado quando, alguns meses depois me apanharam e, depois do castigo, optaram por nos dar uma pequena quantia pequena de escudos para os nossos gastos. 

 

Os primeiros livros que comprei foram Detective Maravilhas. Não gostava de ler o mesmo que todos, na época, Os Cinco (que nunca li) ou Uma Aventura. Queria livros diferentes embora desconhece-se que os três eram de géneros semelhantes. Aprendi a gostar de Uma Aventura quando um amigo que, pelo meu aniversário, me ofereceu um livro autografado pelas autoras e, considerando deprimente arrumar um livro autografado sem nunca lhe ter pegado, excepto para folhear, optei por ler e gostei. Nunca cheguei a completar a colecção Detective Maravilhas porque, pouco depois, entrei na fase das revistas para adolescente Super PopRagazza Bravo.

 

Ler. Sempre li. Livros. Sempre gostei de livros.

 

Os livros, uns obrigatórios pela escola/faculdade outros por escolha e gosto, sempre estiveram presentes nos meus dias. Quando, nas primeiras semanas de caloira e ainda a adaptar-me às mudanças e à cidade, li Inés da Minha Alma em dois dias e reli Para A Minha Irmã. Descobri que, tal como nos primeiros anos em Portugal, quando a minha mãe me comprou livros infantis, os livros poderiam ser os melhores amigos. E, quando anos mais tarde, terminei o namoro, na ausência de amigos que não me julgassem ou me lançassem um eu bem te avisei, foi nos livros que encontrei a fonte para o esquecimento da minha dor... estiveram sempre presente, sem nunca julgar, fazendo-me esquecer o que sentia. 

 

Livros são uma espécie de namorado, amigos, companheiros. Não traem, não mentem, nem julgam. Simplesmente, acalmam o turbilhão de sentimentos. Nos maus momentos, como a mudança de país ou o fim de um relacionamento, foi neles que me refugiei. Neles, nas palavras de quem os escreveu, encontrei um bocadinho de mim... um sentimento, uma característica, um sonho ou uma passagem. 

 

Livros, livros e mais livros. Não lhes resisto. Passaria grande parte do meu dia, se tal me fosse permitido, a ler. A estante, embora ainda não esteja nem a metade de ficar completa, lá vai acusando a falta de espaço... e eu que gosto de os exibir, de contemplar, de os tocar. A minha casa, aos meus olhos, ganhou uma nova cor quando a estante exibiu os meus livritos. Uma casa sem livros parece despida. Uma estante sem livros não é uma estante. É tudo menos uma estante. E depois, ainda há aquela estúpida dificuldade em desfazer-me deles... não me importo que sejam usado, em quinta mão, desde que seja um livro e esteja legível. Livros que entram em casa, no coração e na memória e, dificilmente, voltam a sair.

 

Recentemente, fizeram-me duas perguntas o que fazes com tantos livros... vendes depois de ler? consegues lembrar-te de todos os livros que leste?.

 

Sobre a primeira, a resposta é simples: nada. Doei uns cinco e ando a tentar ganhar coragem para me desfazer dos que não gostei mas, daqueles que me marcaram, ou seja, quase todos, nada faço. Não é preciso muito para um livro me tocar e, mesmo que não seja o melhor de sempre, o simples facto de ter gostado dele, dificulta-me a tarefa de me desfazer dele. Julguem-me, condenem-me, mas é algo que não controlo. São caros, bem sei, nem tão pouco bens de primeira necessita mas, adoptando a política de uma amiga de livros até dez euros e optando por comprar em segunda mão, tenho gastado muito menos. E é tão difícil desfazer-me deles. Bom, e quanto à segunda questão... Infelizmente, tenho péssima memória e, com o tempo, detalhes da história desaparecem. Porém, sobrevive o essencial para explicar o porquê de ter gostado e de me ter tocado. Pegar no livro ou passar os dedos pela lombada são gestos que me fazem reavivar a memória. É como assistir a um jogo de futebol ou a um concerto. Com o tempo, a memória prega-nos uma rasteira e pequenos detalhes daquele jogo ou concerto esfumam-se e, apenas os sentimentos permanecem. 

 

Ler livros, o melhor elixir para a alma. Viajar, conhecer, aprender, sonhar, amar, chorar, sorrir. Já experimentei um pouco de tudo com os livros. Livros, uma espécie de namorado, amigo e companheiro. Já fui D. Maria II e senti as dores da condenada Mary Broad. Já viajei a um futuro imaginário e conheci lugares fantásticos e desconhecidos. Já amei e chorei como Caris e Kamryn Matika. Já vesti a pele de um homem e fui Jacob e Daniel. E, tudo sem sair do meu lugar, do meu mundo, do meu eu. Livros e mais livros que, um dia, num futuro, espero conseguir fazer sentir e incutir o gosto nos filhos que venha a ter. 

Numa outra vida,

no passado que desconheço, no tempo antes de ser quem sou, devo ter sido espanhola. Espanhola de gema, provavelmente daquelas que nunca saiu de Espanha, mas conheceu o país de uma ponta à outra. Ou, se não fui espanhola no meu passado, naquele que nunca conhecerei, então fui casada com um espanhol. Ou tive uma grande paixão por um espanhol. Qualquer coisa cujo elemento chave é Espanha.

 

Mas, talvez o melhor seja explicar-me...

 

Espanha sempre me fascinou. Adoro-a. Adoro a língua e considero-a extremamente sexy e caliente. Gosto do povo, que considero alegres e divertidos. Gosto do facto de terem reis e princesas; não que considere, em termos políticos, melhor do que aquilo que temos por cá * mas, porque sempre gostei da época de reis, rainhas, príncipes e princesas **. Gosto de ler livros em espanhol, de assistir a séries e de não ter legendas nos filmes, mas dobragens para a língua. Gosto dos pontos de exclamação e interrogação ao contrário e no início de cada frase, do España com aquele ñ e de as palavras ou apelidos não terminarem com M, mas com N. Gosto, embora saiba e conheça as instabilidades territoriais, das enormes diversidades espanholas. Gosto das músicas e de como, até as mais tristes letras, parecem alegres. Sempre gostei e, na verdade, nem sei exactamente explicar o porquê. 

 

E, gosto do Cristiano Ronaldo a falar portuñol... embora, nem eu seja melhor do que ele porque, apesar de tudo, misturo tudo e às vezes nem me entendo no meu próprio portuñol!

 

Quando era miúda, torcia sempre pela Espanha. Ou melhor, fosse qual fosse a disputa, por futebol ou festivais de música, por exemplo, o meu desejo era sempre o mesmo: se Portugal não ganhar, espero que seja a Espanha a vencer. Era o meu desejo, o nosso, meu e o do meu irmão. E, já na universidade, quando quis fazer erasmus e a falta de dinheiro não me permitiu, a minha escolha foi para aquele país.

 

Quiçá, na verdade, este sintoma espanhol se explique pela proximidade e nascimento. Da janela do meu quarto posso olhar Galiza de Espanha e, em meros quilómetros, entrar em solo de nuestros hermanos. Ou, pelo nascimento, porque nasci no outro lado do Oceano, para onde tantos portugueses outrora emigraram e se fala espanhol. Ou, o mais provável é nada disto explicar o meu fascínio... Itália é outro dos meus fascínios mas, invariavelmente, em menor percentagem. Adoro o país onde nasci. Quero, um dia, quando o louco desaparecer e a violência deixar de ser rainha, conhecer o país que me viu nascer e que tão pequenina abandonei ***. Amo o país em que cresci a partir dos seis anos, Portugal, e sinto-me tão ou mais portuguesa do que quem por cá nasceu...

 

Mas, existe qualquer coisa que me apaixona e me faz vibrar com Espanha. Não sei o que é, nem tão pouco explicar mas, provavelmente, noutra vida, fui espanhola... ou, na viagem da vida, a próxima paragem seja por terras de Cervantes. 

 

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* (mas, em verdade se escreva, Felipe e Letízia são muito melhor, dinâmicos e jovens, do que as múmias de Belém em que, ele e ela, conseguem ser mais chatos e aborrecidos, sempre com o mesmo ar enfadonho, do que alguns idosos que conheço... e esperemos que ninguém me processe por isto)

** (e não me peçam para explicar, já remonta aos livros de História e são das personagens, para lá das revoluções e guerras, que mais amor me despertam)

*** (dois mais dois são quatro e certamente que já descobriram qual o meu país de nascimento... ahahah!)

O que fazer com às lembranças de ti?

Dois anos, quase três, deveriam marcar a diferença: esquecer-te. Mas, quando os meus olhos encontraram aquele saco com a caixa das lembranças do que fomos, não consegui evitar abrir e retirar cada uma das pequenas coisas do que um dia fomos. Uma caneca, uma camisola, os restos de um ramo de flores, as tuas cartas e palavras de amor, a nossa primeira fotografia, o teu peluche de infância. Pequenos momentos que sinto ao tocar em cada peça, em cada objecto, em cada lembrança. O meu coração é um tolo que desenterra pequenas lembranças do nosso passado. Naquela caixa, guardada no frio e escuro de uma garagem, tentei enterrar-nos, a ti e a mim, aos nossos maus e bons momentos. 

 

O que fazer com aos presentes de uma relação?

 

Durante anos debati-me sobre o que acontecia aos presentes dos casais. Não existe uma regra: ou se guarda ou desaparecem. Perguntava-me sobre o que aconteceria aqueles peluches, cartas e pequenas coisas que via os casais enamorados de amigos trocarem. Nunca perguntei a ninguém, amigo ou amiga, o que acontecia com aquelas pequenas lembranças dos ex-namorados mas, questionava-me. Colocava-me no lugar delas e acreditava que eu, provavelmente, os destruiria. Acreditava que, desta forma, seria mais fácil esquecer alguém. Até passar pelo mesmo...

 

Quando, à dois anos terminamos, quis destruir tudo: queimar, deitar fora ou simplesmente devolver. Achava que seria mais fácil assim. E, foi nesta altura que perguntei, pela primeira vez a alguém o que fazer com as coisas de quem um dia amamos. Disse-me essa amiga que, fosse qual fosse a minha escolha, nada apagaria as lembranças nem tão pouco o traria de volta. Ela reuniu as lembranças de ambos e guardou-as e, a mim, aconselhou-me o mesmo. Assim o fiz. Quis devolver o seu peluche que, ora me trazia boas lembranças, ora me devolvia discussões mas, faltou-nos a coragem para um último adeus. 

 

Tu não sabes, ninguém sabe, mas tenho apenas uma fotografia tua, nossa. A primeira que tiramos juntos naquela aldeia perdida na serra. Um dia de raiva e revolta apaguei, uma a uma, tu e nós. Não te queria ver mais...

 

Porém, uns dias antes de dizer adeus à eterna cidade que o coração adoptou e que é tua desde sempre, vi-te. Não sabes, mas mexeu imenso comigo... ver-te passar de carro (e, creio que, também me viste). Quase um ano depois, voltava a ver-te. Nessa noite adormeci agarrada aquele maldito boneco amarelo, entre lágrimas e uma caixa carregada de recordações na cabeceira. No dia seguinte ganhei coragem e enfiei o teu boneco num envelope com a tua morada... ainda hoje, a caminho dos três anos desde o fim, guardo aquele pedaço de ti fechado na solidão de uma garagem.

 

Lembrei-me de ti. Ando à uns dias a pensar em ti, a falar de ti. Não são saudades de ti ou de nós. De ti, queria apenas a amizade que me negaste, como se o que vivemos não tivesse valido nada. Para ti, talvez tenha sido mais uma mas, para mim, foi o mais próximo que tive de sentir que alguém gostava de mim de alguma maneira. Sei lá. O que sinto é um misto de saudades, de carência, de vontade de reviver os bons momentos que junto a ti vivi... mas com alguém que não tu.

 

O que vou fazer com as prendas do L.? perguntou-me a minha irmã, entre lágrimas, quando a relação deles terminou.

 

Tem dezassete anos e um mundo pela frente. Outros amores, lágrimas e sorrisos. Respondi-lhe Guardas-as numa caixa e ela, entre lágrimas, assim o fez, Porque independentemente de tudo o que sintas, nada apagará essas lembranças...

 

Porque, passem os anos que passarem, jamais esqueceremos os amores que nos marcam. 

 

E, perguntas-me, se soubesses que ainda penso em ti, porque te escrevo isto... e, a verdade, é que não sei. Queria apenas reflectir sobre os presentes que guardamos de uma relação e, inevitavelmente, o pensamento traiu-me. Falo de ti porque nunca me deixaste explicar o que sentia. Falo de ti porque acredito que já nem te recordas de mim... do meu nome e dos meus olhos, do meu corpo e da marca que caracteriza o meu rosto. Acredito que não sabes mais quem eu sou. Falo de ti porque acredito que não guardes, como eu, aquilo que um dia te ofereci... às vezes, imagino-te a destruir aquela enorme moldura com as nossas fotografias (e que tu, provavelmente, não imaginarás o trabalho que me deu!) ou aquele quadro que te pintei... ou, pior, atiradas para um caixote de lixo malcheiroso. Prefiro assim, imaginar tudo isto... e, confesso, às vezes peço às estrelas para eliminar da alma e do coração tudo o que é teu.

 

Hoje mexi naquela maldita caixa... e percebi que ainda não te esqueci. Será que se a atirar para um caixote de lixo, como acredito que tenhas feito comigo, me esqueço de ti?

 

O meu coração é um idiota... e, sei lá, eu também... por te escrever estas palavras.

Sobre a saudade...

Saudades é receber uma mensagem no telemóvel da tua antiga faculdade (para doar sangue) e sentir o coração apertadinho e a lágrima no olho. Saber que o tempo passa e as saudades ficam e se acumulam... e, assim, quase sem dar por isso, passou um ano depois do último adeus. 

 

* (e, até as saudades apertam quando sentimos falta daqueles professores que acreditamos nunca sentir falta)