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Um Mar de Pensamentos

Um mar de leituras. Um mar de sonhos. Um mar de conquistas, lutas e fracassos. Um mar de mil pensamentos. O diário de Maria, 29 anos*

Um Mar de Pensamentos

Um mar de leituras. Um mar de sonhos. Um mar de conquistas, lutas e fracassos. Um mar de mil pensamentos. O diário de Maria, 29 anos*

Uma história de mim sobre os livros.


M*

13.03.15

Livros e mais livros. Livros. Não me canso de livros.

 

Os meus pais nunca tiveram o hábito da leitura; excepto ler alguns jornais ou revistas. O vício da leitura e dos livros, dizem eles, foi-me incutido por uma amiga da família, uma vizinha do prédio onde vivíamos na Venezuela. Formada na área dos comportamentos humanos, psicologia ou peudoterapeuta, a verdade é que não me recordo da profissão, passei longas horas com ela, onde ler, escrever ou fazer contas de matemática básicas eram rotina. Deste modo, quando nos mudamos para Portugal, conseguia escrever o meu nome completo, bem como ler e escrever palavras básicas em espanhol e fazer contas simples de somar ou subtrair.

 

É estranho como, apesar dos vinte anos que separam a saída do país natal para Portugal, os sentimentos ainda se mantenham e as perguntas iniciadas por e se de quem nunca quis viver no desconhecido sobrevivem... parece-me que, por muitos anos que passem, perguntas como e se nós nunca tivéssemos saído de lá, como será que eu seria? parecida com elas, com a pele tão morena? ou será que os meus gostos seriam os mesmos de agora? e se por lá estivesse, teria esta profissão?. Perguntas que parecem simples para quem nasceu e sempre viveu no mesmo país, embora complexas e incógnitas para quem, em criança, se viu obrigado a mudar de país e não queria - mas, que escolha tinha eu, quando não passava de uma miúda de seis anos? Adiante...

 

Quando, dois anos depois de chegarmos a Portugal, nos mudamos para esta vila, a minha mãe ofereceu-nos, a mim e ao meu irmão, duas caixinhas com cinco livros cada. No total, eram dez pequenos livros, em português, de clássicos intemporais infantis, tais como CinderelaO Patinho Feio, Rapunzel ou A Bela e o Monstro. Livros que, o meu irmão nunca leu, mas que eu devorei e reli uma, duas e três vezes, guardando-os como se de um pequeno tesouro se trata-se. No fundo, aqueles livros eram o meu pequeno tesouro, os melhores amigos que tive na infância. Porque, de facto, os primeiros anos em Portugal estiveram longe de serem perfeitos e eu, que outrora era miúda segura e refilona, optava por ficar calada com receio de ser gozada por tropeçar o espanhol com o português. Não aprendi, naquela idade e ainda hoje, como se fazem amigos. 

 

Os livros, para os meus pais, nunca foram fonte de interesse. Embora a minha mãe me tenha oferecido aqueles livros, a verdade é que para eles, apenas os livros/manuais da escola é que importavam. Consideravam que a minha atenção, aliás, a nossa atenção, minha e do meu irmão, deveria passar pelas aulas e livros/manuais escolares. Outros livros não lhe encontravam utilidade. Mas eu, também sempre fui criança teimosa... Assim, uns anos mais tarde e na falta de vontade dos meus pais em comprar livros, roubava algumas moedas da carteira da minha mãe para livros e, mais tarde, revistas. Não me julguem nem me condenem. Não sabia o que era semanada ou mesada. Só aprendi tal significado quando, alguns meses depois me apanharam e, depois do castigo, optaram por nos dar uma pequena quantia pequena de escudos para os nossos gastos. 

 

Os primeiros livros que comprei foram Detective Maravilhas. Não gostava de ler o mesmo que todos, na época, Os Cinco (que nunca li) ou Uma Aventura. Queria livros diferentes embora desconhece-se que os três eram de géneros semelhantes. Aprendi a gostar de Uma Aventura quando um amigo que, pelo meu aniversário, me ofereceu um livro autografado pelas autoras e, considerando deprimente arrumar um livro autografado sem nunca lhe ter pegado, excepto para folhear, optei por ler e gostei. Nunca cheguei a completar a colecção Detective Maravilhas porque, pouco depois, entrei na fase das revistas para adolescente Super PopRagazza Bravo.

 

Ler. Sempre li. Livros. Sempre gostei de livros.

 

Os livros, uns obrigatórios pela escola/faculdade outros por escolha e gosto, sempre estiveram presentes nos meus dias. Quando, nas primeiras semanas de caloira e ainda a adaptar-me às mudanças e à cidade, li Inés da Minha Alma em dois dias e reli Para A Minha Irmã. Descobri que, tal como nos primeiros anos em Portugal, quando a minha mãe me comprou livros infantis, os livros poderiam ser os melhores amigos. E, quando anos mais tarde, terminei o namoro, na ausência de amigos que não me julgassem ou me lançassem um eu bem te avisei, foi nos livros que encontrei a fonte para o esquecimento da minha dor... estiveram sempre presente, sem nunca julgar, fazendo-me esquecer o que sentia. 

 

Livros são uma espécie de namorado, amigos, companheiros. Não traem, não mentem, nem julgam. Simplesmente, acalmam o turbilhão de sentimentos. Nos maus momentos, como a mudança de país ou o fim de um relacionamento, foi neles que me refugiei. Neles, nas palavras de quem os escreveu, encontrei um bocadinho de mim... um sentimento, uma característica, um sonho ou uma passagem. 

 

Livros, livros e mais livros. Não lhes resisto. Passaria grande parte do meu dia, se tal me fosse permitido, a ler. A estante, embora ainda não esteja nem a metade de ficar completa, lá vai acusando a falta de espaço... e eu que gosto de os exibir, de contemplar, de os tocar. A minha casa, aos meus olhos, ganhou uma nova cor quando a estante exibiu os meus livritos. Uma casa sem livros parece despida. Uma estante sem livros não é uma estante. É tudo menos uma estante. E depois, ainda há aquela estúpida dificuldade em desfazer-me deles... não me importo que sejam usado, em quinta mão, desde que seja um livro e esteja legível. Livros que entram em casa, no coração e na memória e, dificilmente, voltam a sair.

 

Recentemente, fizeram-me duas perguntas o que fazes com tantos livros... vendes depois de ler? consegues lembrar-te de todos os livros que leste?.

 

Sobre a primeira, a resposta é simples: nada. Doei uns cinco e ando a tentar ganhar coragem para me desfazer dos que não gostei mas, daqueles que me marcaram, ou seja, quase todos, nada faço. Não é preciso muito para um livro me tocar e, mesmo que não seja o melhor de sempre, o simples facto de ter gostado dele, dificulta-me a tarefa de me desfazer dele. Julguem-me, condenem-me, mas é algo que não controlo. São caros, bem sei, nem tão pouco bens de primeira necessita mas, adoptando a política de uma amiga de livros até dez euros e optando por comprar em segunda mão, tenho gastado muito menos. E é tão difícil desfazer-me deles. Bom, e quanto à segunda questão... Infelizmente, tenho péssima memória e, com o tempo, detalhes da história desaparecem. Porém, sobrevive o essencial para explicar o porquê de ter gostado e de me ter tocado. Pegar no livro ou passar os dedos pela lombada são gestos que me fazem reavivar a memória. É como assistir a um jogo de futebol ou a um concerto. Com o tempo, a memória prega-nos uma rasteira e pequenos detalhes daquele jogo ou concerto esfumam-se e, apenas os sentimentos permanecem. 

 

Ler livros, o melhor elixir para a alma. Viajar, conhecer, aprender, sonhar, amar, chorar, sorrir. Já experimentei um pouco de tudo com os livros. Livros, uma espécie de namorado, amigo e companheiro. Já fui D. Maria II e senti as dores da condenada Mary Broad. Já viajei a um futuro imaginário e conheci lugares fantásticos e desconhecidos. Já amei e chorei como Caris e Kamryn Matika. Já vesti a pele de um homem e fui Jacob e Daniel. E, tudo sem sair do meu lugar, do meu mundo, do meu eu. Livros e mais livros que, um dia, num futuro, espero conseguir fazer sentir e incutir o gosto nos filhos que venha a ter. 

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