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Um Mar de Pensamentos

Um mar de leituras. Um mar de sonhos. Um mar de conquistas, lutas e fracassos. Um mar de mil pensamentos. O diário de Maria, 29 anos*

Um Mar de Pensamentos

Um mar de leituras. Um mar de sonhos. Um mar de conquistas, lutas e fracassos. Um mar de mil pensamentos. O diário de Maria, 29 anos*

27 | Na minha estante... O Rapaz Que Venceu Salazar.


M*

27.12.15

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 O Rapaz Que Venceu Salazar é uma viagem, à década de 1960, na pacatez de uma vila alentejana e à descoberta de um grupo improvável de amigos na era da ditadura e dos medos. 

 

É importante, antes de falar sobre o livro de Jacinto F. Matias, explicar o que me levou a adquirir e ler este livro. Acompanho, no facebook, grupos onde todos os meses são publicadas as novidades literárias e foi por lá que se deu o primeiro contacto... foi o título que me despertou a curiosidade e a sinopse deixou-me conquistada. Por outro lado, embora eu adore romances históricos, confesso que o período da ditadura salazarista é daquelas temáticas que pouco leio... ou porque não me sinto cativada pelas sinopses ou por receio de leituras extremamente detalhadas historicamente. A verdade é que sentia necessidade em ler algo relacionado com um período histórico português que não se focasse na vida das Rainhas - como os romances bibliográficos de Isabel Stiwell... e eu leio poucos romances históricos sobre Portugal. O livro de Matias facilmente me seduziu e não me contive em rapidamente adquiri-lo. Uma das melhores compras do ano de dois mil e quinze. 

 

(...) quanto mais intensamente se vive, mais tendemos a não cuidar das memórias, a não avaliar e aprender com o caminho que percorremos. Temos sempre pressa de partir, absorvidos pelo desafio do próximo destino, até que partimos de nós próprios para destino nenhum. 

 

O Rapaz Que Venceu Salazar centra-se na aventura de um grupo invulgar de amigos que, em Vila de Duque, secretamente se reunem para jogar à sueca, comer, beber e ouvir as ilegais rádios Moscovo e BBC. Os quatro amigos discutem sobre as gentes da vila, mulheres, gastronomia, as mudanças internacionais, sobre a política de Salazar e, sem o saberem, um espião acompanha-lhes as discussões e posições. Os amigos Zé Maria, Carapau, Tonico e Martinho Lutero desejam liberdade e, por isso, quando afixam um cartaz do MUD na vila, incentivando à participação nas eleições - a farsa da ditadura - os quatro pagam pela ousadia de lutar contra a ditadura. Numa época em que reina o receio dos agentes da PIDE, um país abalado pela guerra colonial e a liberdade de expressão é sufocada, uma criança luta contra isto, desencadeado uma reacção ao medo e à obediência. Uma criança que luta pela felicidade e liberdade dos castigos impostos aos quatro amigos.

 

O romance de Jacinto F. Matias é sublime, invocando a força da amizade, a dignidade e o sabor da inocência. Numa escrita subtil, profundamente bem planeado e estruturado, recheado de humor e ternura, O Rapaz Que Venceu Salazar convida-nos a conhecer um período marcante e real de Portugal... mais do que isso, é um convite à reflexão sobre as mudanças sociais e políticas de um país. Uma pequena vila onde pequenas coisas se tornam enormes acontecimentos. Pontuado por pequenos detalhes sobre os acontecimentos nacionais. Personagens, peculiares nos nomes mas tão reais, homenageiam aqueles que se arriscaram em nome da liberdade. Um romance que é, de alguma forma e para mim, uma espécie de crítica à sociedade actual... onde nada arriscamos.

 

Quando um frágil se levanta contra um medo que é de todos, é inspirador, envergonha e desperta. E pior se por causa disso o castigarem, pois cresce a indignação e um dia explode a revolta - é por aí que vão as revoluções - Digo-te mais: quando olho para trás, convenço-me de que tudo isto, a Liberdade, começou na nessa noite em que o cineteatro inteiro se levantou para aplaudir os nossos amigos. 

 

O Rapaz Que Venceu Salazar de Jacinto F. Matias foi um dos melhores livros que li em dois mil e quinze. Um romance essencial para amantes da leitura e apaixonados por História. 

 

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Jacinto F. Matias (via wook)

J. F. Matias é um moçambicano das serranias, beirão dos trópicos, tinha 20 anos no 25 de Abril. Gostava de poesia, mas estudou economia. Paciência! Cidadão do mundo, que percorreu vendendo coisas várias, encontrou um dia, num hotel de Frankfurt, um afegão enfezado que vendia tapetes e reviu-se nele. Foi aí que, já tendo feito filhos e plantado árvores, decidiu que um dia escreveria um livro, ainda que ninguém o lesse, e aconselhou o afegão a fazer o mesmo. 
Orgulhoso o suficiente para escrever, humilde quanto baste para perceber que ao leitor o que mais interessa é o livro, pouco lhe importando quem o escreveu.

É da sua autoria A Guerra do Salavisa (2014).

26 | Na minha estante... A Contadora de Histórias.


M*

25.11.15

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  A Contadora de Histórias, da aclamada escritora Jodi Picoult, romance profundo e inesquecível, é uma viagem de encontro a um passado trágico e marcante de uma família judia nos campos de concentração da II Guerra Mundial. 

 

Sager Singer é jovem, inteligente, curiosa e, porém, extremamente marcada pelos traumas do passado e incertezas do futuro. A morte dita-lhe a profissão: padeira. Sager trabalha de noite, preparando o pão e os bolos para o dia seguinte numa pequena padaria, gerida por uma ex-freira católica e a sua única amiga, e de dia refugia-se no sono para fugir à solidão e à dor pela perda da mãe. A perda trágica da mãe, pela qual Sager se responsabiliza, torna-a membro de um grupo de apoio onde trava uma amizade improvável com o velho Josef Weber. 

 

Josef Weber, no alto dos seus noventa e muitos anos, não consegue ultrapassar a dor pela perda da esposa e, no entanto, não é a única morte que o marca. Elemento querido e reconhecido pelas suas actividades de apoio à da comunidade e aos jovens de Westerbrook, Josef esconde um terrível segredo... e um favor extraordinário a pedir a Sager.

 

Suponho que quando uma liberdade nos é retirada, reconhecemo-la como um privilégio e não como um direito.

 

Os protagonistas, deste livro, e de uma estranha e invulgar amizade, transformam-se no dia em que Josef revela o seu passado a Sager. A busca pela verdade e justiça, caminhará de mãos dadas com a traição, o amor e o perdão, um segredo que mudará a vida de Sager. No fundo, são histórias de vida dentro de outras histórias de vida que, rapidamente e surpreendentemente, se cruzam com a de uma judia sobrevivente do Holocausto e de um ex-alto dirigente de um campo de concentração nazi. 

 

A Contadora de Histórias é um romance magnifico, grandioso, realista, distinto. A história de Sager e Josef tocou-me pela escrita inconfundível e maravilhosa de Jodi Picoult mas, sobretudo, pelo outro lado... poucos foram os livros que li sobre os campos de concentração nazi que revelassem os sentimentos de quem os dirigia e vigiava.

 

Se os meteres todos no mesmo saco por serem alemães, como podes ser diferente quando eles nos metem a todos no mesmo saco por sermos judeus?

 

Surpreendente e soberbo, este romance publicado pela Bertrand Editora, revela o lado alemão e a forma como os seus jovens se deixaram contagiar pelas ideias nazis, os sentimentos possíveis de quem se uniu aos campos de concentração para assassinar idosos, homens, mulheres e crianças, acima de tudo, pela religião que seguem, mas igualmente pela etnia, sexualidade ou posição política. Não é, de todo, uma justificação ou desculpa para actos imperdoáveis é, no entanto, um alerta para a facilidade com que nos deixamos facilmente influenciar por preconceitos e discursos inflamados de ódio. 

 

Incrivelmente, não foi a coisa mais deprimente que alguma vez tínhamos visto: uma noiva, arrancada ao seu próprio casamento, separada do noivo e metida num transporte para Auschwitz.

Pelo contrário, deu-nos esperança.

Queria dizer que, independentemente do que acontecesse neste campo, por muitos judeus que eles continuassem arrebanhar e matar, continuava a haver mais judeus: a viverem vidas, a apaixonarem-se, a casarem, a partir do princípio de que o amanha chegaria. 

 

Invulgar e espantoso, A Contadora de Histórias é uma leitura de cortar a respiração, cativando-nos desde a primeira página à última. Adorei cada uma das personagens, cada particularidade, cada sentimento, cada história...

 

Dentro de cada um de nós existe um monstro; dentro de cada um de nós existe um santo. A verdadeira questão é qual deles alimentamos melhor, qual deles destruirá o outro.

 

Ler A Contadora de Histórias depois de Viver Depois de Ti, um livro extremamente marcante e que me deixou sob efeitos de uma ressaca literária, elevou a minha fasquia... mas não desiludiu, pelo contrário, surpreendeu, elevando as leituras seguintes a patamares difíceis de igualar. Na verdade, 2015 têm-se revelado um ano de leituras marcantes...

 

Jodi Picoult

Picoult1-dl_jpg_610x343_crop_upscale_q85.jpgNasceu em Nova Iorque, EUA, em 1966. Estudou Inglês e escrita criativa na Universidade de Princeton e publicou dois contos na revista Seventeen enquanto ainda era estudante. O seu espírito realista e a necessidade de pagar a renda levaram Jodi Picoult a ter uma série de empregos diferentes depois de se formar: trabalhou numa correctora, foi copywriter numa agência de publicidade, trabalhou numa editora e foi professora de inglês. Premiada com o New England Book Award, em 2003, pela totalidade da sua obra.

Dos cerca de vinte livros publicados por Picoult, apenas quinze se encontram traduzidos à língua portuguesa.

25 | Na minha estante... Viver Depois de Ti.


M*

10.11.15

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 Viver Depois de Ti é uma história delicada, uma reflexão sobre a vida, um livro tocante.

 

Lou Clark sabe imensas coisas. É uma jovem invulgar, prática, divertida. Adora o seu emprego como empregada de mesa e sabe que não está apaixonada pelo namorado de longa data. Não possui grandes sonhos ou planos de vida. Will Traynor sempre foi um jovem activo, dinâmico, inteligente. Uma vida profissional agitada, amante dos desportos radicais e sedutor, Will têm grandes planos para a sua vida, até àquela trágica manhã... quando um acidente o atira para os braços da dependência de terceiros. Ele sabe que não quer viver assim, sem sonhos, liberdade ou dependente de terceiros e sentimentos de pena. O que, no entanto, nem Will nem Lou sabem é que os seus caminhos se cruzaram. O desemprego de Lou e a dependência de Will fará com que o destino dos jovens se encontrem e, em somente seis meses, as certezas de cada e a forma como encaram a vida alterem. 

 

Ouvi falar muito sobre este livro. As críticas positivas, emotivas, marcantes, despertaram a minha curiosidade... E, confesso, poucos livros me abalaram tanto quanto este. Na verdade, poucos livros me marcaram tão profundamente como este. Foi demasiado fácil colocar-me na pele dos protagonistas e compreender os seus sentimentos e escolhas. Chorei e ri alto no aconchego do meu quarto, sorri e evitei as lágrimas em público. Um livro capaz de me fazer reflectir sobre as minhas próprias escolhas... desejar largar tudo e viver tão intensamente como as personagens nos incentivam. 

 

A escrita de Jojo Moyes é mágica, simples, envolvente:  temas sensíveis e delicados são apimentados com um toque de humor, reflexão e informação. Adorei cada uma das personagens: a serenidade do Will e o temperamento jovial, alegre e inteligente de Lou. 

 

Viver Depois de Ti é um livro intenso, uma história que me acompanhará ao longo da minha vida, uma história impossível de esquecer. Poderia continuar a escrever tanto sobre este livro e tinha mesmo que escrever sobre ele... mas, o melhor que posso escrever é recomendar a sua leitura. Ninguém consegue ficar indiferente a este livro. Só quem lê Viver Depois de Ti compreender as mil emoções que este livro despertou em mim. Uma leitura obrigatória.

 

Tu só tens uma vida. É o teu dever vivê-la o máximo possível.

 

_ Um livro em filme...

Viver Depois de Ti encontra-se em fase de adaptação à tela do cinema. A MGM adquiriu os direitos cinematograficos sobre o livro, o guião é trabalhando pela prórpia Jojo Moyes em colaboração com outros roteiristas. Contará com as interpretações de Emília Clarke, d' A Guerra dos Tronos, e de Sam Claflin, d' Os Jogos da Fome, nos papeis principais de Lou e Will. 

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A estreia do filme, nos EUA, está marcada para Junho de 2016, não existindo ainda uma data de estreia para Portugal. 

 

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Jojo Moyes (resumo via wook)

Jojo Moyes nasceu em 1969 e cresceu em Londres. Estudou Jornalismo e foi correspondente do jornal The Independent até 2002, quando publicou o seu primeiro romance, Retrato de Família, e resolveu dedicar-se à escrita a tempo inteiro. Foi uma das poucas autoras a ganhar por duas vezes o prémio Romantic Novel of the Year, primeiro com Foreign Fruit (2003) e com A Última Carta de Amor (2010). Do catálogo da Porto Editora constam já os romances Silver Bay - A Baía do DesejoUm Violino na NoiteRetrato de FamíliaA Última Carta de Amor e Viver Depois de Ti.

 

24 | Na minha estante... De Amor e Sangue.


M*

08.10.15

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 De Amor e Sangue, o mais recente livro traduzido para português de Lesley Pearse, transporta-nos para Inglaterra do século XIX e os mais diversos preconceitos da época. 

 

A recém-nascida Hope é a prova viva do adultério da mãe, uma aristocrata bela mas desprovida de sentimentos, egoísta, preocupada em manter a fachada de um casamento rico mas infeliz. A pequena Hope é entregue aos cuidados dos Renton, uma família pobre de camponês mas acolhedora, humilde e trabalhadora. Hope cresce sem conhecer as suas verdadeiras origens, recheada de amor, apesar das privações e obstáculos que a vida lhe coloca. Porém, tal como os restantes membros da família Renton, chega o dia em que Hope se vê forçada a trabalhar, contribuindo para o sustento da família e, com pouco mais de doze anos, começa a servir em casa da família onde nasceu. Longe do brilhos e dos pomposos jantares e bailes que a família oferece aos membros da aristocracia inglesa, Hope conhece a dureza do trabalho e os segredos mais negros da própria família, que desconhece. É, contudo, a morte dos progenitores Renton, com tifo, e de quem a jovem Hope cuidará, que abalará os alicerces da sua vida. Nell receber-la-à na casa que partilha com o cruel marido Alex, um homem que se viu obrigado a casar com a ingénua irmã mais velha de Hope para esconder a verdadeira natureza. A vida de Hope e Nell é marcada pela violência física e psicológica de Alex. No entanto, a descoberta de terríveis segredos  levará a jovem Hope a abandonar precipitadamente a casa de Nell, deixando uma breve nota. Os trilhos da vida de Hope, sem dinheiro ou trabalho, levam-na aos bairros mais degrados e pobres de Bristol, obrigando-a a crescer e lutar. É, no meio da miséria e da pagra da cólera, que Hope conhece o jovem dr. Bennett. A coragem, força e bondade de Hope levam-na, na companhia de Bennett, à guerra da Crimeia para tratar dos feridos, como enfermeira. Mas, os segredos do passado teimam em perseguir os passos de Hope, obrigando-a a percorrer um doloroso caminho pelas descobertas das suas origens. 

 

Por vezes, os animais demoravam três dias a morrer, a agonizar caídos no chão, porque ninguém ousava desafiar as ordens de Cardigan e arriscar o chicote. E no entanto as pessoas em Inglaterra pensavam que aquele cretino pomposo, cruel e egocêntrico era um herói.

Hope sabia que os verdadeiros heróis daquela guerra ainda ali estavam, infestados de piolhos, magros e exaustos, a combater nas trincheiras ou estendidos na vasta enfermaria do hospital Scutari com membros a menos.

(p.544)

 

Ler Lesley Pearse é descobrir uma nova e inesquecível história de coragem... a de mulheres dotadas de uma capacidade invejável para ultrapassar todos as adversidades e obstáculos da vida. Mais do que mulheres, ler Lesley Pearse é aventurar-se em pequenos pedaços de História, relatados de forma simples e acessíveis. Ler Lesley Pearse é deixar-se envolver pelas palavras e vestir a pele da heróica protagonista.

 

Li Nunca Me Esqueças, Nunca Digas Adeus, A Melodia do Amor e Nunca Olhes Para Trás e, embora adore os seus livros, todos eles se caracterizam por personagens principais heróicas e bondosas a quem, depois de diversas privações, reviravoltas e dificuldades, a vida compensa e, de personagens secundárias desprovidas de bondade ou valor moral, a quem a vida acaba sempre por castigar... os típicos clichés. Lesley Pearse encontrou a fórmula do sucesso literário: escrever simplesmente, sobre pedaços de História, assumindo a Mulher como protagonista principal, lutando contra preconceitos. E é, resumindo, está a fórmula que me faz adorar os seus livros!

 

O seu desejo era que um dia os hospitais fossem lugares melhores, que os soldados fossem tratados de uma forma humana, que a enfermagem se tornasse uma profissão respeitada. 

(p. 566)

 

De Amor e Sangue, para lá da história da dramática e sangrenta Guerra da Crimeia - envolvendo, de um lado, o Império Russo e, do outro, a Inglaterra, França, Reino da Sardanha e Império Otomano, pretendendo evitar a política expansionista dos primeiros - relata o pesadelo da cólera nos estratos mais pobres e desfavorecidos da sociedade inglesa, abordando os preconceitos morais de uma Inglaterra religiosa e da luta contra a homossexualidade daqueles que se sentiam diferentes. Hope é, por outro lado, o rosto da luta das mulheres pelo direito a exercer enfermagem, numa sociedade claramente masculina, e Bennett, por seu turno, assume um notável papel pelo reconhecimento e importância da medicina nos campos de batalha. 

 

Um romance histórico impressionante, marcante e inesquecível. Hope, personagem ficcional de Lesley Pearse, pode muito bem, num passado, ter sido uma mulher real...

 

- De um modo geral, só vemos aquilo que queremos ver.

(p. 652)

 

Lesley Pearse

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Nasceu em Rochester, Inglaterra, em 1945. É uma das escritoras de romances mais vendidas e de sucesso em Inglaterra, com obras traduzidas em mais de trinta países. Dos cerca de vinte livros publicados em Inglaterra, apenas dez se encontram traduzidos a português.

 

A vida da própria escritora é uma grande fonte de inspiração para os seus livros, onde os sentimentos e as suas experiências de vida transformam as personagens mais vivas e humanas: quer esteja a escrever sobre a dor do primeiro amor, crianças indesejadas e maltratadas, adopção, rejeição, pobreza ou vingança, uma vez que conheceu tudo isto em primeira mão. É uma lutadora, e a estabilidade e sucesso que atingiu na sua vida deve-os à escrita. As suas três filhas, os netos, os cães e a jardinagem trouxeram-lhe uma grande felicidade.

 

A morte da mãe, com apenas três anos, em circunstâncias trágicas, opera a primeira grande mudança na vida de Lesley: ela e o irmão mais velho são colocados separadamente em sombrios orfanatos, uma vez que o pai se encontrava em serviço militar. Três anos mais tarde, o pai regressa, casado com uma ex-enfermeira, reunindo os irmãos e, acrescentando-lhes mais dois novos irmãos adoptivos. A família torna-se família de acolhimento. Lesley abandona a casa da família aos dezasseis anos para se tornar ama e viver em estúdios cheios de humidade. Consequência da falta de afecto e necessidade constante de procura por amor, leva-a a escolhas e decisões erradas em relação ao sexo oposto: com apenas vinte anos casa-se, um casamento de curta duração. Conhece o segundo marido, um músico e escreve o primeiro romance, Georgia, inspirado na vida do segundo marido, nas discotecas e no estilo de vida da época. A primeira filha de Lesley nasce nesta altura mas, graças à vida de ambos, o segundo casamento termina quando a criança tinha quatro anos. Do terceiro casamento nascem mais duas meninas e uma vida feliz: Lesley toma conta das crianças, escreve contos e gere uma loja de presentes. Porém, a recessão dos anos 90, fecha-lhe a loja, deixando-a atolada em dívidas, o orgulho ferido e um casamento de dezoito anos terminado.

 

A escrita foi a minha salvação, afirma a Pearse. Tara, o meu segundo livro, foi finalista do Romantic Novel of the Year Award. Com o apoio da editora Penguin, criou o Women of Courage Award para distinguir mulheres comuns dotadas de uma coragem extraordinária. 

23 | Na minha estante... Jane Eyre.


M*

06.10.15

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 Jane Eyre, a protagonista deste intenso romance da literatura clássica inglesa, é uma viagem bibliográfica apaixonante.

 

Orfã de mãe e pai, Jane Eyre, recebe uma educação severa da tia Reed, onde os abusos físicos e psicológicos, tanto da tia como de primos, marcam a alma da jovem menina. Porém, aos 10 anos de idade é afastada de casa da família Reed e colocada num colégio interno de Lowood. Jane acredita num novo recomeço em Lowood, porém, as privações e educação rígida do colégio teimam em não a abandonar. A infância e adolescência solitária, severa e infeliz fortalecem-lhe o espírito de justiça, nascendo o desejo de independência. É, aos 18 anos, que a vida de Jane sofre a desejada reviravolta, levando-a à casa de Thornfield Hall, testemunho da paixão que unirá Jane, como preceptora da menina Adèle, a Mr. Edward Rochester, o proprietário. No entanto, um terrível segredo separa-os, obrigando Jane a tomar uma decisão difícil, revelando o carácter e personalidade marcante.

 

Jane Eyre é uma história de amor inesquecível. Publicado, pela primeira vez, em 1847, a paixão de Jane e Edward revelam os preconceitos da época, questionando questões sociais e morais, tais o papel da mulher na sociedade e o peso da Igreja. Os protagonistas do romance de Charlotte Brontë revelam personalidades distintas mas cativantes, numa Jane insubmissa, determinada, corajosa, mas desejosa de amar e ser amada e num Rochester misterioso, inteligente, temperamental, mas próximo dos seus criados. Relatado na primeira pessoa pela protagonista, Brontë mistura paixão com ingredientes da literatura gótica, mistério e suspense. Numa escrita acessível, sem uso excessivo recurso a expressões pomposas, Jane Eyre tornou-se um dos meus clássicos preferidos. Adorei o mistério em torno do segredo de Edward e da forma como a paixão nasce entre os protagonistas, embora considere que seja um livro de acção lenta. 

 

- Eu não sou nenhuma ave, nem estou presa em rede alguma. Sou um ser humano livre e com vontade independente, de que agora faço uso para me soltar de si.

(palavras de Jane a Mr. Rochester, p. 306)

 

Li, recentemente, O Monte dos Vendavais de Emily Brontë, do qual gostei. Porém, comparando-o a Jane Eyre, confesso-me verdadeiramente rendida. O primeiro romance que li das irmãs Brontë é uma história triste, onde senti dificuldades em entrar, no entanto, em Jane Eyre rapidamente mergulhei... e adorei! Atrevo-me a escrever que se trata de um dos meus livros favoritos, o meu clássico favorito!

 

- (...) Nunca se ri, Miss Eyre? Não se incomode a responder, eu bem vejo que ri pouco. Mas é capaz de se rir alegremente. Acredite-me, a sua natureza é tão pouco austera como a minha é corrompida.

(palavras de Mr. Rochester a Jane, p. 176)

 

Jane Eyre, de Charlotte Brontë, foi leitura realizada em conjunto com a Nathy (a publicar em breve), Sofia e Magda, do Clube das Pistogas Que Lêem.

 

Charlotte Brontë

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A mais velha das três famosas irmãs Brontë, Charlotte nasceu em Abril de 1816, em Thornton, Inglaterra. Mudou-se, muito nova e juntamente com a família, para Yorkshire. Órfã de mãe aos cinco anos, Charlotte, as quatro irmãs e o único irmão Brontë ficaram aos cuidados de uma tia, desprovida de quaisquer qualidades e sentimentos de mãe. Charlotte, tal como as irmãs e irmão, não tiveram uma vida fácil. 

Jane Eyre é, para muitos, fruto da própria experiencia de vida de Charlotte Brontë, que tal como a personagem do seu romance mais conhecido, foi professora e preceptora, tendo igualmente vivido em condições de internamento, fatal para duas das suas irmãs. Escreveu, sob pseudónimo masculino de Currer Bell, O Professor, Shirley, Villette e Jane Eyre

Morreu, aos 38 anos de idade, em Março de 1855, juntamente com o filho que esperava. O seu corpo encontra-se sepultado na igreja de St. Michael and All Angels Cemetery, em Haworth, no oeste de Yorkshire, Inglaterra.

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