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Um Mar de Pensamentos

Um mar de leituras. Um mar de sonhos. Um mar de conquistas, lutas e fracassos. Um mar de mil pensamentos. O diário de Maria, 28 anos*

Um Mar de Pensamentos

Sobre o não gostar de cães.

Não gosto e tenho medo a cães. Mas, o facto de não gostar e de lhes ter medo, não significa que os deseje ver exterminados da fase da terra. E é isto que as pessoas, quando me recuso a fazer uma festa num animal de quatro patas, não entende... vejo o choque e o horror estampado na cara das pessoas quando digo que não gosto de cães, como se tivesse acabado de assassinar alguém ao virar da esquina.

 

Não gosto, mesmo aos mais pequenitos, porque não os acho assim tão carinhosos como dizem que são. Considero-os extremamente dependentes. Não me sei relacionar com eles. O não gostar, no meu caso, está invariavelmente ligada ao medo. Não gosto do ladrar dos cães nem de quando saltam para cima de mim... é meio caminho andado para começar a entrar num ataque de pânico. 

 

Quando era miúda, tinha eu uns dez anos e o meu irmão oito, numa visita a casa do meu avô, o cão preto de porte médio apanhou o meu irmão, mordendo-o num braço. O animal recebia-nos sempre a ladrar, em enormes pulos que, segundo o meu avô, eram demonstração de felicidade por receber visitas. Mas, para mim, aquilo era tudo menos alegria e, quando naquela tarde, o animal fugiu e ao ver o meu irmão ensanguentado, tive a certeza de que nunca mais iria gostar daqueles animais. Durante muitos anos, mudava de passeio quando via um sozinho ou afastava-me o mais possível deles. Esperava sempre o momento em que me atacassem. A idade e os alertas de um amigo sobre o medo, fizeram-me acalmar e, hoje em dia, embora não mude de passeio, tento afastar-me. Se o cão estiver sozinho, ando em permanente estado de alerta, esperando o momento em que ele me morda. 

 

A experiência traumática de infância ditou os meus sentimentos para com estes animais. E, quando digo que não gosto e tenho medo a cães, para além de ser olhada como uma assassina, não me deixam explicar o porquê... acabo sempre a ouvir que os cães são melhores do que algumas pessoas. Como se eu fosse péssima pessoa por não gostar deles. Não sou hipócrita. Nunca iria dizer que gosto, só para agradar. Não faz parte de mim e do meu feito. Na verdade não duvido que sejam melhores do que algumas pessoas. Certamente são melhores do que aqueles que os abandonam.

 

Sempre convive com cães mas nunca fui pessoa de fazer festas ou de demonstrações idênticas. Certa vez, ao sair do autocarro e vindo sabe-se lá de onde, um pequeno cão começou a farejar-me as pernas, sempre à minha volta, a cheirar-me. Tentei afasta-lo mas o bicho só me largou quando a dona apareceu. Disse-me ela, que o cão nem era de fazer muito aquilo, geralmente era desconfiado porque já o tinham maltratado, mas que se me andava a cheirar é porque sentiu que tinha um animal em casa. Respondi-lhe que não, nem cão nem gato e que tinha medo a cães. Ela sorriu-me e disse-me que deveria ser boa pessoa porque o cão dela raramente fazia aquilo, muito menos a uma desconhecida. Retribui o sorriso e segui caminho.

 

No ano passado, um cão cor de mel apareceu-me do local do trabalho do meu pai quando estava a sair. Assustei-me quando o vi, ainda o tentei enxotar com as mãos mas, por qualquer motivo, o bicho olhou-me com um ar tão tristonho e acabei por lhe dar um pouco de água. Tentei, a medo, perceber se tinha coleira quando me apareceu um GNR. Contei-lhe que lhe tinha dado água e que achava que o animal tinha sido abandonado, tendo ele ficado com ele e garantindo-me que o iria enviar para o canil da vila enquanto investigavam. Senti pena dele, do cão e, por momentos, ainda pensei em ficar com ele, coisa que nunca aconteceria porque moro num apartamento e não considero que seja o melhor sítio para os ter. Foi a primeira vez que senti o medo a fugir-me, o não gostar a transformar-se.

 

Aqui, na vila onde moro, a GNR foi chamada a um apartamento porque o cão da família fazia as necessidades no terraço de casa que, que não sendo muito grande, o obriga a aliviar-se em cima de quem passa na rua. O animal, segundo dizem, passa os dias sozinho e a família opta por o colocar na varanda e, desta forma, não estragar nada em casa. Não senti pena da família, embora a conheça, mas sim do animal. Quem quer ter um animal, precisa de lhe dedicar tempo e espaço, de lhe ensinar e saber que irão (certamente) estragar alguma coisa em casa. É básico. Mas, por qualquer motivo, parece também ser uma moda ter animais de companhia... mesmo sem as mínimas condições para os ter. E, depois, quando chegam as férias, é vê-los às matilhas vagueando pelas ruas. Animal - seja cão, gato, periquito ou coelho -, deve ser tratado como um membro da família, sociabilizado e educado, dedicando-lhe tempo, atenção e espaço e, tal como não abandonamos um filho ou filha, não abandonar um animal. Simples. 

 

Quem não gosta de cães, tal como eu, não significa que deseje cometer um massacre em massa contra tudo o que seja canino. Não gostar nada têm que ver com o desejo de os exterminar ou que os bichos nunca deveriam ter nascido. É simplesmente não gostar e cada um sabe dos seus motivos. Não confundam o não gostar com o ódio a cães, em que volta e meia, algum idiota demente e atrasado se dedica a fazer-lhes mal para puro divertimento. Uma coisa é não gostar, outra completamente diferente é ouvir alguém dizer que odeia animais - e eu já ouvi, por isso não é tão invulgar como julgam. É o mesmo que dizermos que todos os muçulmanos são terroristas ou que todas as feministas são lésbicas ou que todos os benfiquistas anda para aí a cantar aos sete ventos very-light 97 - numa alusão à morte de um adepto sportinguista, num derby entre os dois clubes, em 1997. Por favor, não coloquemos todos no mesmo saco. E bato palmas à criminalização do abandono de animais e ódio, só mesmo a quem os deixa na rua...

 

O mundo aceita facilmente o medo como justificação. Porém, aos donos de cães e não só, da próxima vez que alguém dizer que não gosta de cães, não olhem para nós como se fossemos alliens ou assassinos ou terroristas a planear o fim de todos os cães. Não somos. Somos pessoas normais, com gostos e preferência, tal como há quem adoro chocolates e há aquelas que não gostam. 

 

Prefiro gatos mas, no dia de amanhã, quando morar sozinha, sei lá o que me reserva o futuro...

 

* (para o Bunny, a Saphira e o Speedy, gosto de vocês, mas assim, longe... nem é nada contra vocês em particular, mas eu é que, pronto, não me relaciono lá muito bem. Bunny e Saphira, os cães da Magda e o Speedy da Sofia Margarida.) 

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