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Um Mar de Pensamentos

Um mar de leituras. Um mar de sonhos. Um mar de conquistas, lutas e fracassos. Um mar de mil pensamentos. O diário de Maria, 29 anos*

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O Regresso de Victoria Hislop.


M*

06.02.16

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 O Regresso de Victoria Hislop, numa escrita fluida, recorda-nos os horrores da Guerra Civil Espanhola e a forma como marcou a sociedade da época, através da família Ramirez. 

 

A jovem inglesa Sonia Cameron, a protagonista, vive um casamento de aparências com um bancário mais velho, filho de famílias ricas e gostos refinados. O marido, Jack, encontra na bebida o consolo para o desmoronar do casamento; Sonia apoia-se na amiga, Maggie, e na dança, a salsa, em que acidentalmente tropeça. A paixão pela dança leva as amigas a descobrirem a cidade espanhola de Granada, onde Sonia se deixará deslumbrar pela beleza e dramatismo do flamenco. Maggie é alegre e divertida procurando, em Granada, dançar e conhecer homens; Sonia, por seu lado, deixa-se deslumbrar pela beleza da cidade e sentimento de familiaridade da cidade, procura aventura-se à descoberta do passado histórico. É no café El Barril, através do velho dono do café, Miguel, que Sonia descobrirá o trágico passado da família Ramirez. 

 

Dividido em três partes, a primeira dá-nos a conhecer Sonia e o pai, Maggie e Jack e a relação complexa entre as personagens. A segunda e terceira parte remetem-nos para a conversa que Sonia e Miguel travam graças às imagens fotográficas que marcam as paredes do El Barril. Um toureiro e uma dançarina de flamenco são o mote que levam Miguel a recordar os trágicos e horríveis anos da Guerra Civil Espanhola... uma conversa que levará a protagonista a descobrir um passado que a liga a Granada. 

 

Quando a Segunda República foi declarada, uma das prioridades do novo governo foi assegurar-se de que toda a gente tinha a oportunidade de aprender a ler, e foi lançada uma campanha para erradicar o analfabetismo. (...) Ele sabia que o analfabetismos fazia das pessoas escravas (...). Ele sabia que a educação era uma força poderosa de libertação.

 

O Regresso, inicialmente, não me cativou. A primeira parte do livro achei-a previsível e aborrecida, descrevendo uma Sonia passiva e influenciável, uma Maggie leviana e doida, um Jack manipulador e típico snob. Não conhecia a escritora e sentia-me decepcionada. A segunda parte porém, devolveu-me a ânsia da leitura, tornando este livro um dos, até agora, livros favoritos. 

 

Victoria Hislop descreve a cidade de forma límpida e envolvente, como se de facto estivéssemos nas ruas estreitas granadinas ou a visualizar a beleza de Sierra Nevada. Faz-nos desejar conhecer, de facto e verdadeiramente, a cidade. Por outro lado e de forma apaixonada, Hislop conseguiu descrever a essência e o dramatismo do flamenco, incasável e muito visual. Eu, desde menina, sempre quis aprender flamenco - bem como a sevilhana - mas, através deste livro, uma das danças típicas do país vizinho afigura-se como uma dança difícil, emotiva e ao alcance de poucos... o que, de facto, é tremendamente verdade. 

 

Por vezes a dor é demasiado grande para chorar.

 

Todavia, se Granada e o flamenco foram tão magnificamente descritos, os relatos de Miguel a Sonia sobre a Guerra Civil Espanhola mostraram a dor inesquecível daqueles que viveram os anos que profundamente marcaram um país. Os sentimentos de medo e desconfiança, por vezes, de filhos contra pais e de irmãos contra irmãos, tão bem escritos, relatam o sofrimento que despedaçaram famílias e a divisão da sociedade entre apoiantes da República e os apoiantes de Franco. 

 

O Regresso de Victoria Hislop é um relato doloroso sobre uma guerra que dividiu um país, marcando gerações e a fuga de um povo para um país frio e preconceituoso, como França ou Inglaterra - e, inevitavelmente, associei a história e tratamentos dos refugiados espanhóis nos países mencionados, à actual crise de refugiados na Europa e à forma como os tratamos e olhamos. Um romance histórico que, apesar de alguns aspectos negativos (e dos quais opto por não escrever para evitar entrar em detalhes sobre os desenvolvimentos da narrativa), deixará saudades. Foi por abordar a temática da Guerra Civil Espanhola que o adquiri... e, ainda bem, ensinou-me tanto sobre este período negro da História de Espanha.

 

- Como é que consegue estar tão bem-disposto o tempo todo? (...)

- Qual é a vantagem de se estar doutra maneira? - disse o velhote. (...) - O que podemos nós fazer? Nada. Estamos impotentes.

Antonio pensou por um momento antes de responder.

- Resistir? Escapar? - sugeriu ele.

- Tu sabes tão bem como eu o que acontece a alguém que faça isso. Eles são destruídos. Completamente - ele disse a última palavra com ênfase. O seu tom tinha mudado totalmente. - Para mim, trata-se de proteger o espírito humano - continuou. - Para outros será combaterem até ao último suspiro. A minha resistência a estes facistas é deixar-me ir, sorrir, mostra-lhes que eles não conseguem esmagar a minha alma, o meu próprio ser. 

 

Vale a pena ler O Regresso de Victoria Hislop... pela História, por Granada e pelo flamenco.  

 

___

 

Título Original: The Return, 2008
Autora: Victoria Hislop, Reino Unido 
Tradução: Isabel Baptista 
ISBN: 9789722627412
Páginas: 460
Editora: Civilização Editora, 2008
Sinopse:
Cativante e profundamente comovente, o segundo romance de Victoria Hislop é tão inspirador como o seu romance de estreia e bestseller internacional, A Ilha.
Nas ruas calcetadas de Granada, sob as majestosas torres do Alhambra, ecoam música e segredos. Sónia Cameron não sabe nada sobre o passado chocante da cidade; ela está lá para dançar. Mas num café sossegado, uma conversa casual e uma colecção intrigante de fotografias antigas despertam a sua atenção para a história extraordinária da devastadora Guerra Civil Espanhola. 
Setenta anos antes, o café era a casa da unida família Ramirez. Em 1936, um golpe militar liderado por Franco destrói a frágil paz do país, e no coração de Granada a família testemunha as maiores atrocidades do conflito. Divididos pela política e pela tragédia, todos têm de tomar uma posição, travando uma batalha pessoal enquanto a Espanha se autodestrói.

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