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Um Mar de Pensamentos

Um mar de leituras. Um mar de sonhos. Um mar de conquistas, lutas e fracassos. Um mar de mil pensamentos. O diário de Maria, 28 anos*

Um Mar de Pensamentos

Eu, falsa mulher, me confesso.

Eu me confesso: sou uma falsa gaja. Diz-se que mulher que é mulher compreende de mil e umas coisas. Digo eu, que sou gaja, que tal não é verdade e não passa de uma ideia idiota e machista do que é ser mulher.

 

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Não sei andar de saltos altos. Na verdade, nem sequer sei distinguir os diversos nomes atribuídos aos formatos de sapatos. Não ando de saltos altos finos, gosto deles com grande suporte no calcanhar. Não sei andar de saltos altos sem parecer uma maluquinha e, para dizer a verdade, às vezes nem sei andar em saltos rasos... altos ou baixos, qualquer pode-me levar à queda.

 

Não percebo nada de maquilhagem. Não percebo o significado de mil e um pincéis e afins, nem tão pouco a utilidade de mil e um cremes. Ver um vídeo sobre maquilhagem é como ver um ver um jogo de futebol: não compreendo. É lápis para aqui, é pincel para ali, é creme para esconder a olheiras e mil e umas utilidades da maquilhagem... e eu só me consigo lembrar das minhas colegas de faculdade que, no Verão e carregadas de maquilhagem, deixavam as blusas brancas do traje académico marcadas de base e riscos de suor no rosto. Uso lápis e o rímel e, mesmo estes, apenas em ocasiões especiais, não vá fazer uma reacção alérgica... ah, e o habitual creme hidratante de rosto.

 

Não percebo nada de unhas, manicure e pedicure. A lima irrita-me e sozinha não a consigo usar. Não consigo tirar as peles em redor das unhas nem de as puxar para trás. Pinto as unhas conforme sei, quase sempre pintando a pele. E, quanto à pedicure, uma a duas vez por mês lá vou a quem compreende e faz de tal o seu trabalho... porque, o único que sei é pintar as unhas - e, mesmo assim, nunca ficam tão perfeitas e lindas como na pedicure.

 

Não percebo de cabelos. O meu cabelo é tão fino que mete nervos. Não sei fazer penteados... ou fica solto ou apanhado em rabo de cavalo. Corto-o e pinto-o. Mas, contrariamente às gajas normais, eu não consigo antever se me ficaram bem ou mal. Não consigo perceber se, pintando daquela cor, o cabelo vai ficar pior ou melhor do que antes ou, simplesmente, destruir. Tão pouco sei qual é a moda no corte de cabelo.

 

Nunca percebo se algo ficará bem ou mal aos demais. Pedem-me que dê a minha opinião sobre um vestido ou umas calças, se ficam bem ou se fazem mais gorda alguém e eu, que não percebo nada do tema, digo sempre que ficam bem e acho que não fazem mais gorda. Na verdade, apenas consigo perceber quando a peça de roupa é para mim... e encontro mil e um defeitos. Uso e abuso de vestidos, apesar da enorme variz que me atravessa a perna. Não sei o que fica bem no formato do meu corpo. Portanto, não percebo nada de moda...

 

Não percebo nada de homens. Nunca consigo entender quando alguém está interessado em mim (a menos que o diga directa e claramente)... logo, também não sei como demonstrar a um homem que estou interessada nele. Não compreendo os jogos de olhares e não sei como fazer conversa com alguém que me interessa. Não sei seduzir. Quase nunca sinto que olhem para mim na rua (excepto, na última visita ao hospital, em que o enfermeiro me olhou de alto abaixo)... e, se perceber que alguém se interessa por mim, procurarei afastar (porque não estou segura de mim e mergulho em mil medos).

 

Não sou delicada, frágil ou magra. Não percebo de bijutaria nem de dietas (não sei qual o alimento que mais engorda ou emagrece). Não sei usar chapéus e não me sinto confortável a usar calças de ganga. Não gosto do Verão, nem do calor e não sonho em passar horas ao sol à espera de transformar a minha cor de leite em bronzeado (e, acrescento, algumas mulheres ficam tão feias bronzeadas). No Verão, não gosto de andar com malas enormes, prefiro pequenas e levo o meu livro na mão. Gosto do Inverno e do frio. Sai-o do carro aos trambolhões e não vejo novelas. Não conheço os pedaços de mau caminho das estrelas de cinema e série (tirando, o Jon Snow e mais alguns). Nunca sei qual é o tamanho do meu soutien. Não gosto de ir às compras (excepto de livros). Não tenho fotografias belas, sensuais e sexy's no meu facebook ou instagram. Não sei cantar (como diz a minha mãe, acordo os mortos no cemitério). O meu armário de roupa e calçado parece o cenário de uma guerra. Não sei cozinhar (nem gosto). Não uso colares. Não sei dançar. Uso biquíni porque não sinto que, apesar de ser gordinha, necessite de me esconder num fato-de-banho. Não gosto de barrigas à mostra nem de decotes gigantes. Não tenho o desejo de ser mãe (já tive mas, por agora, parece que a desejo desapareceu). Não percebo de decorações para casa. Sou desajeitada e trapalhona. Ah! E contrariamente ao que se diz, digo palavrões... ou não fosse eu gaja do Norte!

 

Portanto, sou falsa gaja e gosto de assim ser (excepto, numa ou noutra situação)... porque, as mulheres não são todas iguais.

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