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Um Mar de Pensamentos

Um mar de leituras. Um mar de sonhos. Um mar de conquistas, lutas e fracassos. Um mar de mil pensamentos. O diário de Maria, 28 anos*

Um Mar de Pensamentos

27 | Na minha estante... O Rapaz Que Venceu Salazar.

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 O Rapaz Que Venceu Salazar é uma viagem, à década de 1960, na pacatez de uma vila alentejana e à descoberta de um grupo improvável de amigos na era da ditadura e dos medos. 

 

É importante, antes de falar sobre o livro de Jacinto F. Matias, explicar o que me levou a adquirir e ler este livro. Acompanho, no facebook, grupos onde todos os meses são publicadas as novidades literárias e foi por lá que se deu o primeiro contacto... foi o título que me despertou a curiosidade e a sinopse deixou-me conquistada. Por outro lado, embora eu adore romances históricos, confesso que o período da ditadura salazarista é daquelas temáticas que pouco leio... ou porque não me sinto cativada pelas sinopses ou por receio de leituras extremamente detalhadas historicamente. A verdade é que sentia necessidade em ler algo relacionado com um período histórico português que não se focasse na vida das Rainhas - como os romances bibliográficos de Isabel Stiwell... e eu leio poucos romances históricos sobre Portugal. O livro de Matias facilmente me seduziu e não me contive em rapidamente adquiri-lo. Uma das melhores compras do ano de dois mil e quinze. 

 

(...) quanto mais intensamente se vive, mais tendemos a não cuidar das memórias, a não avaliar e aprender com o caminho que percorremos. Temos sempre pressa de partir, absorvidos pelo desafio do próximo destino, até que partimos de nós próprios para destino nenhum. 

 

O Rapaz Que Venceu Salazar centra-se na aventura de um grupo invulgar de amigos que, em Vila de Duque, secretamente se reunem para jogar à sueca, comer, beber e ouvir as ilegais rádios Moscovo e BBC. Os quatro amigos discutem sobre as gentes da vila, mulheres, gastronomia, as mudanças internacionais, sobre a política de Salazar e, sem o saberem, um espião acompanha-lhes as discussões e posições. Os amigos Zé Maria, Carapau, Tonico e Martinho Lutero desejam liberdade e, por isso, quando afixam um cartaz do MUD na vila, incentivando à participação nas eleições - a farsa da ditadura - os quatro pagam pela ousadia de lutar contra a ditadura. Numa época em que reina o receio dos agentes da PIDE, um país abalado pela guerra colonial e a liberdade de expressão é sufocada, uma criança luta contra isto, desencadeado uma reacção ao medo e à obediência. Uma criança que luta pela felicidade e liberdade dos castigos impostos aos quatro amigos.

 

O romance de Jacinto F. Matias é sublime, invocando a força da amizade, a dignidade e o sabor da inocência. Numa escrita subtil, profundamente bem planeado e estruturado, recheado de humor e ternura, O Rapaz Que Venceu Salazar convida-nos a conhecer um período marcante e real de Portugal... mais do que isso, é um convite à reflexão sobre as mudanças sociais e políticas de um país. Uma pequena vila onde pequenas coisas se tornam enormes acontecimentos. Pontuado por pequenos detalhes sobre os acontecimentos nacionais. Personagens, peculiares nos nomes mas tão reais, homenageiam aqueles que se arriscaram em nome da liberdade. Um romance que é, de alguma forma e para mim, uma espécie de crítica à sociedade actual... onde nada arriscamos.

 

Quando um frágil se levanta contra um medo que é de todos, é inspirador, envergonha e desperta. E pior se por causa disso o castigarem, pois cresce a indignação e um dia explode a revolta - é por aí que vão as revoluções - Digo-te mais: quando olho para trás, convenço-me de que tudo isto, a Liberdade, começou na nessa noite em que o cineteatro inteiro se levantou para aplaudir os nossos amigos. 

 

O Rapaz Que Venceu Salazar de Jacinto F. Matias foi um dos melhores livros que li em dois mil e quinze. Um romance essencial para amantes da leitura e apaixonados por História. 

 

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Jacinto F. Matias (via wook)

J. F. Matias é um moçambicano das serranias, beirão dos trópicos, tinha 20 anos no 25 de Abril. Gostava de poesia, mas estudou economia. Paciência! Cidadão do mundo, que percorreu vendendo coisas várias, encontrou um dia, num hotel de Frankfurt, um afegão enfezado que vendia tapetes e reviu-se nele. Foi aí que, já tendo feito filhos e plantado árvores, decidiu que um dia escreveria um livro, ainda que ninguém o lesse, e aconselhou o afegão a fazer o mesmo. 
Orgulhoso o suficiente para escrever, humilde quanto baste para perceber que ao leitor o que mais interessa é o livro, pouco lhe importando quem o escreveu.

É da sua autoria A Guerra do Salavisa (2014).