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Um Mar de Pensamentos

Um mar de leituras. Um mar de sonhos. Um mar de conquistas, lutas e fracassos. Um mar de mil pensamentos. O diário de Maria, 28 anos*

Um Mar de Pensamentos

A estranha sensação de conduzir para a liberdade.

Nunca gostei de conduzir. Não sou, de todo, a melhor condutora do mundo. Não sei estacionar o carro na lateral. Não gosto de fazer ultrapassagens nem de rotundas. Porém, a verdade é que, apesar de não gostar de conduzir e não ser a condutora mais experiente ou confiante, existe uma estranha liberdade em conduzir. Quando me aborreço ou sinto que estou prestes a dar em louca, saio-o de casa e pego no carro para conduzir largos minutos. Vou até à cidade, contemplo a praia na noite escura ou, simplesmente, deixo-me passar algumas horas sentadas no café na companhia de um livro. Conduzo à noite quando, na zona onde moro, o volume parece ser menor... e, quando o meu dia-a-dia não exige mais de mim. Cantarolo, desafinadamente, as músicas que me acompanham na rádio. Imagino-me a viajar sem destino ou rumo. Sonho, enquanto conduzo e sem nunca abandonar os olhos da estrada, mil e um cenários distintos à minha realidade. Existe uma estranha e perversa sensação de liberdade em conduzir à noite... e é esta a sensação de liberdade que me faz conduzir. 

 

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18 | Na minha estante... O Monte dos Vendavais.

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  O Monte dos Vendavais, clássico da literatura inglesa e uma das minhas primeiras leituras dos apelidados clássicos antigos, é uma ode ao amor e ao ódio.

 

Os orgulhosos arranjam desgostos às suas próprias mãos.

 

1801. Mr. Lockwood é o novo e curioso inquilino do já velho, misterioso e rude Mr. Heathcliff. Uma noite de tempestade obriga o jovem Lockwood a passar a noite na casa d' O Monte dos Vendavais, onde conhece a misteriosa Catherine. A noite veste-se de imprevistos e estranhos acontecimentos que, levam o jovem inquilino de Mr. Heathcliff a viajar na história das famílias que outrora habitaram na casa d' O Monte dos Vendavais. É a criada da casa da Granja, Mrs. Dean, onde se encontra instalado, quem relatará a Mr. Lockwood toda a história de amor e ódio que dividiu e destrui famílias.  

 

A história começa quando o patriarca da família Earnshaw, após uma viagem a Londres, regressa com o pequeno Heathcliff. É ele o elo de amor e desgraças que se abaterá sobre as vidas que toca. Os filhos de Earnshaw, Catherine e Hindley, sentem-se colocados de parte pelo pai que, parece nutri mais carinho e atenção pelo novo filho. Porém, a morte de Earnshaw levará Hindley a assumir a posição de patriarca da família e, assim, a vingar-se de Heathcliff. A irmã Catherine, todavia, não compartilha do pensamento do irmão e encontra em Heathcliff um parceiro. Nasce, assim, entre ambos algo mais do que uma simples amizade ou carinho de irmãos. A história sofre uma reviravolta com a partida d' O Monte dos Vendavais de Heathcliff, levado a acreditar que Catherine não corresponde aos sentimentos e pela atracção da jovem Catherine aos luxos e riquezas que um casamento podem proporcionar. O regresso, anos mais tarde, de Heatchcliff marcará a vida de das famílias de ódio e vingança. 

Virou o livro de modo que a capa ficasse voltada para mim. O Monte dos Vendavais.

- Já lestes? - perguntou.

(...) 

- É uma história triste.

- As histórias tristes dão bons livros - respondeu ela.

O Menino de Cabul,

Khaled Hosseini 

O Monte dos Vendavais era daqueles clássicos a quem a curiosidade à muito me despertava o interesse... especialmente depois de ler esta referência num dos meus livros preferidos. Porém, confesso, o receio de uma linguagem complexa e inacessível fez-me recear e nunca me aventurar na sua leitura. A verdade é que, ainda bem que a coragem chegou e me aventurei na sua leitura porque, de facto, é uma obra excepcional. Inicialmente não me foi fácil entrar na obra. Não pela escrita em si, mas pelos nomes que, volta e meia, trocava. É, O Monte dos Vendavais, uma obra que exige uma leitura atenta e cuidada mas, todavia, uma obra imperdível.

 

Emily Brontë é uma mulher à frente da sua época. Numa escrita cuidada, Brontë leva-nos a reflectir sobre os nossos medos e angústias, sobre as escolhas que tomamos e as coisas que deixamos por dizer. Uma vez lida uma das obras-primas da literatura inglesa, estou curiosa para ler Jane Eyre de Charlotte Brontë que, como o apelido indica, é a irmã de Emily.

E se julgas que o não percebi, és uma doida; se pensas que posso ser consolado por falinhas mansas, és uma idiota, e se imaginas que sofrerei sem me vingar, convencer-te-ei do contrário em pouco tempo.

O Monte dos Vendavais foi uma leitura realizada em conjunto com a Nathy (clube das pistogas que lêem), do blogue Desabafos da Nathy, onde podem consultar a sua opinião e crítica sobre o livro de Emily Brontë.

 

Emily Jane Brontë

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 Nasceu em Yorkshire, Inglaterra, em Julho de 1818. Irmã de Charlotte e Anne, conhecidas como as irmãs Brontë que, igualmente se dedicarem à escrita, Emily é das três irmãs com menos informações. Conhecida pela sua personalidade introvertida e fechada, Emily escreveu poesia e o seu único romance, O Monte dos Vendavais, sob o pseudónimo masculino de Ellis Bell. Considerado um dos clássicos da literatura universal e obra-prima da literatura inglesa, O Monte dos Vendavais recebeu, em 1847, ano da sua publicação, fortes críticas literárias graças à componente pesada e tensa da história de amor. Porém, o certo é que a obra é uma das mais conhecidas, tendo sofrido diversas adaptações às telas de cinema. 

 

Emily Brontë morreu aos 30 anos, em Dezembro de 1848, vitima de tuberculose. O seu corpo encontra-se sepultado na igreja de St. Michael and All Angels Cemetery, em Haworth, no oeste de Yorkshire, Inglaterra. 

Eu tenho um sonho.

Um sonho simples. Eu tenho um sonho. Na verdade, eu não tenho um sonho, tenho vários sonhos. Sonho com o dia em que os rótulos sejam realmente para as coisas e não para as pessoas. Sonho com o dia em que a pessoa que lê não seja apelidada de nerd, croma, anti-social, retardada, chata, aborrecida, convencida, doutorazinha e demais rótulos de quem lê. Sonho com o dia em que ler seja algo tão banal como respirar ou comer. Sonho com o dia em que deixarei de ser avaliada pela capa e título pomposa, cor-de-rosa e lamechas de um livro. Porque, para mim, ler é como dormir (ambos bons demais para escolher), porque não quero esconder os meus livros em capas de pano e porque, simplesmente, adoro ler. 

 

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Confronto-me, com regularidade, com frases de outrem que revelam elevados graus de ignorância de quem não lê. Quando estava a ler Segue O Coração de Lesley Pearse somente pelo título, rotularam-no de romance feminista e, a mim, de uma sonhadora romântica tola. E, por mais que explicasse que nunca se deve julgar um livro pela capa ou título e de que, quanto ao livro em causa, ele era dirigido tanto a homens como a mulheres, de pouco ou nada serviu... oh gente limitada. 

17 | Na minha estante... Segue O Coração.

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 Londres, 1842. Matilda Jennings é uma pobre vendedora de flores, bonita, inteligente, corajosa, bondosa e dona de uma personalidade forte e lutadora. 

 

Segue O Coração é uma viajem à descoberta da extraordinária vida de Matilda. A viagem inicia-se nos bairros degradados e sujo de Londres, através de um gesto de coragem e bondade que mudará o destino de Matilda e da menina que salva da morte, Tabby Milson, prosseguindo para lá do Oceano. Na cidade de Nova Iorque, para onde Matilda e a família da pequena Tabby se mudam, somos convidados a conhecer o lado sombrio da cidade e dos bairros degradados, onde todas as nacionalidades e sobrevivem com a miséria e a imundice. Porém, o destino de Matilda e dos Milson não se fica por Nova Iorque e, assim, empreendem nova viagem que os conduzirá ao Oeste Selvagem do Novo Mundo. Os passos de Matilda conduziram, ainda e juntamente com os de Tabby e de outras vidas a elas interligadas, à cidade nascida do caos da corrida ao ouro, São Francisco.

 

Lesley Pearse, pela vida de Matilda Jennings, dá-nos a conhecer partes interessantes da História dos Estados Unidos da América, dos finais do século XIX e dos inícios do século XX. Nas mais de setecentas páginas de Segue O Coração somos convidados a conhecer os primórdios da cidade de Nova Iorque, a conquista do Oeste Selvagem, a loucura da corrida ao ouro, o nascimento de São Francisco e a guerra pelo fim da escravatura nos estados do Sul. Os relatos são vivos e marcantes como se de facto os tivéssemos vividos. Aliás, ao longo do livro, Pearse relata-nos histórias baseadas em vidas reais trágicas  que constituem verdadeiros murros. Foi e é de vidas miseráveis e cruéis de ingleses, chineses, irlandeses, mexicanos, alemães e tantas outras nacionalidades, que se fez e vestiu a história dos EUA. 

 

Segue O Coração é a minha quarta leitura de Lesley Pearse (depois de Nunca Me Esqueças, Nunca Digas Adeus e A Melodia do Amor). É, seguramente, uma das minhas escritoras favoritas no género romance histórico. Os livros de Pearse enganam. Refugiando-se num título e capas femininas e cor-de-rosa, traduzem a ideia de tratarem-se de romances lamechas, demasiados melosos. Porém, a verdade é que são livros que ficam aquém do romance, constituindo importantes lições históricas. 

 

Pontos fortes de Segue O Coração: a personalidade extraordinária de Matilda, o romance desta com Giles e, posteriormente, com o capitão James. A influência de Matilda na personalidade de Tabby. As vidas interligadas e marcadas de Matilda com os homens e mulheres que ajuda a escapará à miséria e morte. O capitão James que, apesar de ter nascido no seio de uma família rica, possuí uma alma caridosa e preocupada com os mais fracos. A escrita é simples e clara, absorvente e vivida. 

 

Pontos fracos de Segue O Coração: as mortes que marcam a vida de Matilda que, apesar de tudo, encara sem excessivo dramatismo. O livro é quase escrito de ano a ano, desde 1842, altura em que a vida de Matilda se cruza com as dos Milson; porém, a dado momento da história, após a morte de James, a história sofre um enorme salto no tempo, encontrando uma Matilda envelhecida e sem conhecermos o que acontece nesses anos. 

 

(...) Mas, acima de tudo, quero ter feito uma diferença na vida de outras pessoas.

Matilda Jennings

Lesley Pearse

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 Nasceu em Rochester, Inglaterra, em 1945. Numa dessas minhas aventura literárias descobri Lesley Pearse, através de Nunca Me Esqueças. Uma das escritoras mais vendidas em Portugal, Lesley Pearse nasceu na Inglaterra, país onde os seus romances são dos mais vendidos e a sua obra está traduzida em mais de trinta línguas. A vida da própria escritora é uma grande fonte de inspiração para os seus livros, onde os sentimentos e as suas experiencias de vida transformam as personagens mais vivas e humanas... quer esteja a escrever sobre a dor do primeiro amor, crianças indesejadas e maltratadas, adopção, rejeição, pobreza ou vingança, uma vez que conheceu tudo isto em primeira mão. É uma lutadora, e a estabilidade e sucesso que atingiu na sua vida deve-os à escrita. As suas três filhas, os netos, os cães e a jardinagem trouxeram-lhe uma grande felicidade.

 

A morte da mãe, com apenas 3 anos, em circunstâncias trágicas, opera a primeira grande mudança na vida de Lesley: ela e o irmão mais velho são colocados separadamente em sombrios orfanatos, uma vez que o pai se encontrava em serviço militar. Três anos mais tarde, o pai regressa, casado com uma ex-enfermeira, reunindo os irmãos e, acrescentando-lhes mais dois novos irmãos adoptivos. A família torna-se família de acolhimento. Lesley abandona a casa da família aos 16 anos para se tornar ama e viver em estúdios cheios de humidade. Consequência da falta de afecto e necessidade constante de procura por amor, leva-a a escolhas e decisões erradas em relação ao sexo oposto: com apenas 20 anos casa-se, um casamento de curta duração. Conhece o segundo marido, um músico e escreve o primeiro romance, Georgia, inspirado na vida do segundo marido, nas discotecas e no estilo de vida da época. A primeira filha de Lesley nasce nesta altura mas, graças à vida de ambos, o segundo casamento termina quando a criança tinha quatro anos. Do terceiro casamento nascem mais duas meninas e uma vida feliz: Lesley toma conta crianças, escreve contos e gere uma loja de presentes. Porém, a recessão dos anos 90, fecha-lhe a loja, deixando-a atolada em dívidas, o orgulho ferido e um casamento de dezoito anos terminado.

 

A escrita foi a minha salvação, afirma a Pearse. Tara, o meu segundo livro, foi finalista do Romantic Novel of the Year Award e eu sabia que ia no bom caminho. Com o apoio da editora Penguin, criou o Women of Courage Award para distinguir mulheres comuns dotadas de uma coragem extraordinária. 

 

Segue o Coração, publicado em 2007, sobre a história americana, consagrou-a como escritora de romances históricos. O conhecimento adquirido através do desenvolvimento daquele livro, onde leu mais de duzentos livros, entre viagens e visitas a museus, levou-a a escrever sobre a corrida ao ouro americano, em A Melodia do Amor. Dos cerca de vinte livros publicados em Inglaterra, apenas nove se encontram traduzidos a português.

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