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Um Mar de Pensamentos

Um mar de leituras. Um mar de sonhos. Um mar de conquistas, lutas e fracassos. Um mar de mil pensamentos. O diário de Maria, 29 anos*

Um Mar de Pensamentos

Um mar de leituras. Um mar de sonhos. Um mar de conquistas, lutas e fracassos. Um mar de mil pensamentos. O diário de Maria, 29 anos*

A forma mais rápida e eficaz de me irritarem...


M*

07.05.14

...ou provavelmente, de me insultarem, é dizerem que sou do partido A ou B. 

Hoje, à conversa com uma amiga, discutimos um pouco de tudo: desde a crise económica à imigração, desde a política aos homossexuais. Argumentamos, debatemos, analisamos os diferentes pontos de vista. Porém, a dada altura, quando falamos sobre a homossexualidade e co-adopção, ela não vai de modos e diz-me:

 

Mas tu és bloquistas ou quê?!

 

Ah?! A sério?! Porque temos diferentes opiniões sou bloquista?! Como?! 

Clarifiquei-lhe que não sou coisa alguma, nem bloquista nem de esquerda, centro, direita ou coisa que lhe valha. Não me identifico com nenhum partido porque não consigo ser ou ir do oito ao oitenta. 

Não entendeu ou fingiu que não entendeu porque, como quem não quer a coisa e quando julgava a conversa terminada, acrescentou:

 

Um dia ainda te convenço a filiar no meu partido.

 

Ok, vamos lá com calma, que eu não sou assim tão fácil de persuadir. 

Eu faço parte daquela esmagadora maioria de jovens desacreditados políticos. Não tenho orgulho em dizer isto mas não vejo motivo para orgulhosamente dizer que pertenço ao partido X ou Y. Simplesmente não encontro razões nem me consigo identificar com nenhum deles. Tive amigos e colegas de curso de todas as classes políticas, não um nem dois me tentaram convencer sobre as vantagens e benefícios de me filiar num partido político e, no entanto, a única conclusão a que eu cheguei de anos de convivência é simples: todos farinha do mesmo saco. Ponto. 

Uma carta para mim mesma à 10 atrás.


M*

06.05.14

Olá Maria!

 

Sim, eu, aliás, nós mesmas. Como correm os dias? Tu ainda não sabes, mas vamos viver coisas tão boas no secundário. Acredita!

Sabes a D.? Aquela mesmo que fez uma grande fita à porta da sala de aula com o E.? Essa mesma! Vamos andar às bocas, quase à chapada mas, no final, ela vai ser fundamental quando decidires trocar de disciplina. E, ficas já a saber que, no próximo ano, vais conhecer uma nova professora de português. Vais odiá-la, não tentes negar, vamos odiá-la e achar que ela é a pior professora de português do mundo... e, no entanto, nos momentos mais difíceis, será nas palavras que ela ainda ter irá dizer, que vamos procurar refúgio e conforto. 

Escrevo-te do presente para o meu passado e, assim, reflectir sobre os erros que cometemos. Escrevo-te, hoje, com 25 (quase 26) portanto, serás a Maria dos 15 (quase 16) aquela quem lê esta carta que, mais não é uma forma de reflectir sobre os erros, medos e sonhos de nós mesmas. Parece estúpido, parvo, idiota, escrever a um passado que não podemos mudar, mas que nos ajudará a reflectir sobre um futuro (ou, pelo menos, assim o espero).

Maria, vou começar por falar de coisas simples que podem mudar um bocadinho daquilo que sentes. 

Sabemos que tens medo às lentes de contacto mas, acredita, elas vão fazer por ti aquilo que os óculos nunca poderão fazer: elevar-te um pouco mais a auto-estima... assim como se cortares o cabelo (nem precisas de o pintar!). Sabes, Maria, sei que no passado, outras palavras te machucaram todavia, aquelas que aos 15 te dizem são sinceras... sei que tens medo mas, com o tempo, vais entender que as palavras destas amigas são verdadeiras e autênticas, de quem só te quer ajudar a gostares um pouco mais de ti. 

Ainda assim, quando chegares aos 25, não vais ser uma top model, nem tão pouco a típica miúda cobiçada. Terás dias em que olharás o espelho e te sentirás bonita e outros em que desejarás ter forças suficientes para não teres ataques de fúria contra ti mesma (não, o teu problema com cortes e sangue há-de manter-se para todo o sempre). Mas vais aprender a gostar um pouco mais de ti e a aceitar-te do jeito que és. É um processo lento, do qual não sabermos se algum dia conseguiremos concluir mas, espero, o importante é dar esses pequenos e importantes passos.

Quando chegares aos 12.º ano vais ter de decidir como queres que seja o teu futuro profissional. Sei que não te sentes preparada, que já quisestes ser mil e uma coisas, que tens medo de errar mas, deixa-me que te diga, não deixes que esse medo te influencie na escolha, porque ambas sabemos qual é o nosso sonho e qual é o futuro profissional que gostaríamos. Não deixes que te digam que é um curso sem saída, sem futuro, sem nada. Não te leves pelos medos mas sim pelo teu sonho para que, no futuro, não me obrigues a chorar, no nosso ano de finalista, porque o nosso sonho vai uns metros mais à frente e não fomos capazes de lutar por ele. Mas, se ainda assim, te deixares levar por opiniões alheias, aproveita a escolha, porque compreendermos que não foi assim tão errada... aos 25, só lamentarás não ter aproveitar convenientemente. 

Querida Maria, deixa-me que te diga que não vale a pena criares demasiadas expectativas sobre os demais ou sonhares em exagero. Só vai gerar sentimentos de frustação e desgosto. Portanto, toca a aprender a controlar...

Sei que estas ansiosa por saber como será com o R., se haverá algo de bom entre nós. Por deixarmos que os medos sejam maiores que nós mesmas, o R. será uma eterna paixão de secundário. Uma bonita recordação dos tempos descomplicados que insistíamos em complicar. Mas, posso-te adiantar que ele, hoje em dia, é feio e um dia riremos por nos termos apaixonado por ele. 

Quanto a paixões, deixa-me que te diga que, embora sempre procuramos lutar pela lógica e raciocínio, um dia deixaremos que seja o coração a levar a melhor. E, quando esse dia chegar, vais deixar-te apanhar nas teias de um amor... ou isso ou pela idiotice dos preconceitos sociais, de acharem que uma rapariga que, aos 22 não namora é um extraterrestre, uma "anormal"... ou, pelo menos, assim pensaremos e, com receio de sermos estranhas, deixamo-nos levar. Ele não vai aparecer do dia para a noite. Vão-se cruzar inúmeras vezes na mesma rua. No início nem vais reparar nele... até entenderes que, naquele grupo, alguém te olha e sorri sempre que passas... e, vais achar tão estranho que, sempre que se cruzarem, vais olhar para o chão. Até que tudo aconteça ainda vão passar uns meses... por isso, porque não eliminas o teu perfil no facebook? Talvez assim evites cometer um erro que tantas lágrimas te irá roubar... porque, por ele, vais deixar de acreditar no amor e em príncipes.

Mas, se ainda assim, insistires em mergulhar nesta relação, entende de uma vez por todas que não podes agradar a todos. És uma só, somos uma só, com vontade própria. Mostra-lhe que pensas por ti e não pelos outros. Que não és mesmos fraca que as outras só porque és mais gordinha que elas. Faz-lhe entender que não te pode mudar. Sobretudo, que não te podes dividir e agradar a todos, como tanto queremos fazer e ser. 

E, mesmo quase três anos, estas lembranças te roubam uma lágrima...

Sabes que, 10 anos depois, ainda vamos continuar a gostar de música espanhola? Provavelmente, vamos envelhecer a adorar música espanhola... Ah! Tu ainda não o conheces, ainda vai demorar até o ouvires pela primeira vez (e muito antes de ele se tornar famoso por terras portuguesas), mas o nosso-quase-príncipe-encantado chamar-se-á Pablo Alborán (creio que se o juntássemos ao Enrique Iglesias, seria uma mistura explosiva). Vais ouvi-lo tantas vezes sem nunca te cansares... 

Posso-te dar um conselho? Aprende inglês. É, Maria, mesmo não gostando da língua (vamos ser consideradas um aliene por não termos interesse em conhecer Londres ou Nova Iorque) ela vai-nos ser mais útil do que aquilo que imaginamos. Portanto, vamos lá fazer um esforço para retomar o estudo do inglês. 

Quando chegares aos 25, vamos aprender a amar uma cidade. Não, não é dos 15, aquela que amamos desde o primeiro dia em que a vimos, uma outra em que viveremos momentos que nos ensinaram a crescer. Nela aprenderemos a amar, sorrir, chorar, sonhar... uma cidade que vai saber a saudade e nostálgica.

Sei que, aos 15 como aos 25, não vivemos dias fáceis mas, podes agora não acreditar, vão passar. Demora, o tempo às vezes parece estar contra nós, mas esse dia há-de chegar... terá de chegar, para nosso próprio bem. Aos 25 como aos 15, ainda não encontramos o nosso príncipe nem tão pouco elevamos a nossa auto-estima mas, aos poucos e poucos, vamos construindo um caminho. Vais voltar para casa dos pais e para a "santa terra". Vais sentir que fracassamos em algum momento da nossa vida. Vais sentir-te sozinha, perdida e sem rumo, procurando conforto em testamentos de desabafos num mundo virtual bem como no mundo dos livros. Mas, acredita, daqui a 10 anos será diferente... pelo menos, assim o espero, porque ainda não perdi a esperança.

 

Com amor, 

Maria, aos 25 anos

 

p.s.. Desculpa o testamento... sempre tivemos esta necessidade de escrever sobre tudo e sobre nada, mesmo que não tenhamos talento algum... mesmo que muita coisa ainda tenha ficado por escrever e desabafar.

A ideia de escrever uma carta a mim mesma no passado partiu de um blog que descobri, por mero acaso, no facebook. As suas publicações são uma verdadeira inspiração e um sorriso no rosto. Hypeness: inovação e criatividade para todos.

Quem sabe, um destes dias, escreva a mim mesma no futuro...

Retrato de Família | Livros.


M*

02.05.14

Quão grave pode ser que, numa família de cinco elementos (composta por mãe, pai, duas filhas e um filho) apenas um elemento tenha o bichinho dos livros?

Sim, este é o retrato da minha família. Dos cinco elementos, apenas eu adoro e sinto necessidade em ler. 

Os restantes elementos restringisse aos jornais desportivos (no caso de pai e filho), a revistas sobre novelas e vida dos famosos (no caso da minha mãe - até me arriscaria a dizer livros religiosos mas, algo me diz que nem esses... no máximo, no limite dos máximos, livros sobre sonho) e a livros e manuais escolares (a minha irmã)

Portanto, volta e meia, lá oiço uma das frases que mais odeio:

 

Mas a quem é que tu foste buscar o gosto pelos livros, rapariga? 

Ninguém nesta casa gosta de ler e tu gasta tanto dinheiro em papel...

 

Pois. Portanto, sem exemplos familiares que me cativassem para a leitura, nem eu sei onde arranjei este adorável e inseparável bichinho que tanto prazer me dá. 

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